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A Capoeira no Mundo Marvel

Com o passar do tempo, a capoeira está ganhando mais espaço midiático, não só no Brasil, como no resto do mundo. Já apontamos aqui o destaque que a capoeira tem ganhado ao longo dos anos nos filmes nacionais e internacionais, nas novelas, nos documentários e nas revistas em quadrinhos.
A segunda temporada do herói negro da Marvel, Luke Cage, é o mais recente veículo a divulgar a arte da capoeira. Estar em uma produção da Marvel já era por si só um fator extremamente positivo para a capoeira, mas a Marvel vai além e coloca o seu praticante em um vilão negro jamaicano, extremamente ligado às suas origens e cultura.
John Bushmaster é o personagem usado pela Marvel, personagem este que sofre uma releitura pela produtora para que pudesse ser o capoeirista que vemos no decorrer da história. Para além das questões que envolvem a trama desta segunda temporada da série, o nosso capoeirista jamaicano nos faz refletir em alguns aspectos que levaram para que a produtora escolhesse a capoeira como a arma mortal deste vilão.
Que ligação intrínseca há para que este personagem jamaicano de origem pobre e negro trouxesse com ele a capoeira como luta? Quais foram os argumentos que os produtores usaram, que não aparecem na história, para que essa ligação fosse feita? Será que este usou da afirmação de que a capoeira se liga indubitavelmente ao povo negro? Ou será um reconhecimento da capoeira como uma luta mortal pelo mundo? Ou quem sabe ainda os dois últimos?
Para nós, historiadores e amantes da capoeira, ver nossa cultura e esporte, mesmo que minimamente representado, nos dá um alento de que a cada dia que passa a capoeira cai nas graças do mundo, sendo encarada de uma forma respeitosa e em certa medida sendo nivelada de igual para igual com as demais lutas do mundo.
Não haver uma explicação dentro da história do porquê nosso personagem aprende a nossa arte-luta, pode nos remeter ao fato de que ela já é entendida por aqueles produtores de conteúdo como uma ação mundial e sem contestações, desta forma pode ser aprendida em qualquer lugar e por qualquer um.
Entretanto, nosso personagem é negro, o que nos pode remeter à ideia de que estes produtores entendem que por ser um personagem negro de uma ilha da América Central, a lógica seria ligá-lo à uma luta que de certa forma faça parte da história e cultura do seu local de origem, por mais que não tenhamos certeza de que a capoeira seja presença marcante na Jamaica desde antes o século XX.
Partindo deste pressuposto podemos inferir não só um desconhecimento da história da América Latina, como também um certo preconceito do movimento cultural da capoeira, por mais que lutas semelhantes tenham pontilhado em quase todos os pontos de escravização africana. Atrelar uma luta nitidamente negra à uma personagem negra pode ser entendido como um preconceito velado, onde aquele indivíduo por sua origem não poderia praticar outra luta que não aquela.
Problematizamos esta questão porque entendemos que não devemos apenas bater palmas por lembrarem da nossa arte-luta, e sim que devemos estudar o porquê usaram e como usaram, pois para nós de nada adianta divulgar a arte perpetuando os preconceitos e estigmatizações que em nada são benéficos para o nosso esporte e a divulgação de nossa cultura.
A capoeira tem sim que ser vista e lembrada em todos os meios midiáticos, mas devemos com cautela avaliar como ela está sendo representada para que de forma nenhuma ela seja depreciada, ou usada de forma ainda a perpetrar estigmas. Para além destas ressalvas que devemos sempre fazer, o que nos resta é ficar felizes pela lembrança da nossa arte-luta em um veículo tão poderoso como a Netflix e comemorar este avanço da capoeira no mundo.

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A Capoeira na Música Popular Brasileira: Berimbau

          Berimbau

       Voltamos esse mês com a nossa Coleção: capoeira na música popular a todo vapor e com um participante de peso, Vinícus de Moraes. Lançada em 1971 em parceria com Toquinho, “Berimbau” é nossa mais nova integrante.

       Vinícius traz  para a capoeira a questão do amor, e a disputa de um amor que pode levar a uma luta de vida ou morte. O molejo e a malemolência do capoeirista são bem representados por Vinícius tanto na melodia da música quanto na sua letra. Com Vinicius a capoeira galga mais um passo para sua inserção em uma parcela da sociedade que admirava suas músicas, a capoeira deixa de pertencer somente ao mundo do samba e passa a ser integrante da Bossa Nova e MPB.

         O compasso melódico criado para a música nos dá asas para sentir e ver através do que ouvimos na música, aquela ginga característica do capoeirista que tanto fez parte do imaginário da sociedade ser perceptível e palpável. Vinícius dá o toque poético para o jogo da capoeira que faltava para consolidar a capoeira como parte integrante de nossa sociedade.

           O capoeirista de Vinícius também não cai, e se cai “cai bem” como vemos na letra. A música de Vinícius nos abre um leque para discussão por ser mais uma a falar dos sentimentos do capoeira, essa figura que por muito tempo foi temida e por muitos odiada. A música não só a de Vinícius, mas a maioria das que foram apresentadas pelo Itan Òbe mostram esse sentimentalismo latente no capoeira que poderemos explorar em discussões futuras.

      Berimbau é mais um marco de afirmação da capoeira que dentre as esferas musicais nos tem se mostrado o quanto é maleável e perfeitamente pertencente aos variados universos musicais, do Samba ao Samba enredo, da Bossa Nova ao Tropicalismo a capoeira tem estado presente.

          Não nos esqueçamos de um dado bastante importante a ser considerado, a afirmação cultural que o Brasil passava no período de produção da maioria destas composições, que compreendem as décadas de 60, 70 e 80 do século XX, foram períodos de intensas lutas políticas e de uma construção e produção cultural totalmente novas no Brasil.

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