Posts Tagged With: preconceito velado

Gritaram-me Negra!

     Essa mês não será falado, mencionado ou apontado algo sobre capoeira em específico, mas sim abriremos espaço mais uma vez para um ponto que engloba a capoeira enquanto agente em uma sociedade segregadora e preconceituosa. “A Cor da Capoeira” e sua musicalidade ainda são enormes barreiras para sua aceitação total em nossa sociedade enquanto luta nacional. A música, por exemplo, dentro da capoeira para pessoas desavisadas e preconceituosas é um sinal, ou uma representação da presença da religião de cunho afro-brasileira.

     A discriminação motivada pela cor da pele e o desconhecimento são fatores preponderantes nas nossas discussões sobre a capoeira e seus reflexos na nossa sociedade, e devem sim ser discutidos para que desta forma possamos entender o lugar que colocaram a capoeira enquanto agente aglutinador de uma determinada parcela da nossa sociedade.

     Esse poema de Victoria Santa Cruz, refletia uma sociedade em uma época que não está tão distante assim de nós. Vemos que por mais que se encubra o preconceito quanto a cor, o cabelo e a boca a cada dia que passa o nosso “padrão de beleza” sempre se distancia de uma parte fundamental da nossa história, tentamos a cada dia que passa nos enquadrar em uma beleza que não é nossa, cabelos, maquiagens, alisamentos e chapinhas.

     Andar com o cabelo “Black”  e Dread ainda não são bem quistos totalmente, podemos provar essa questão quando vemos uma pessoa de “dread” ou “black”, a primeira reação da maioria das pessoas além do estranhamento é a ideia de sujeira. Os nossos modelos negros ainda são minoria e entram nas propagandas e nos desfiles através de “cotas”, prova disso é que quando pensamos em um referencial de modelos internacionais negras apenas um nome nos veem a mente, Naomi Campbel.

    Cego é a pessoa que acredita que vivamos no Brasil a fatídica “Democracia Racial”, a nossa situação só se resolverá quando passarmos a discutir de fato as questões que levaram a essa discriminação, não se combate o preconceito não falando dele, e sim tocando cada vez mais nessa ferida que ainda esta aberta para nós.

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“Resistência ou conflito? O legado folclorista nas atuais representações do jogo da capoeira”

       A afirmação da capoeira enquanto “esporte nacional” ou “luta nacional” está inserida no grande processo de construção de uma “nacionalidade brasileira” iniciada por Getúlio Vargas a partir da década de 30 do século do XX. Questões como pureza, tradição, originalidade e natureza da capoeira são os pontos selecionados para se caracterizar a capoeira que seria a “verdadeira”.

       A discussão que estava em voga na segunda metade do século XX era a oposição do tradicional versus moderno, com a valorização do tradicional para que se pudesse “construir uma nacionalidade brasileira” pelo viés da mestiçagem. É nesse contexto que a origem, natureza e razão da capoeira são construídas, como Simone Pondé aponta em seu texto.

      É por estas razões, que Simone Pondé trabalha em seu texto com mais vagar e profundidade, que se pretere a capoeira praticada no Rio de Janeiro com o pretexto desta ser influenciada pela modernidade e não ser mais “pura”, ser contaminada por outras formas de luta. A folclorização da capoeira com a desculpa de “resgatar” o tradicional é à base de sustentação do grande sucesso da Capoeira de Angola, que foi impulsionada e “legitimada” por diversos intelectuais da época, como Edison Carneiro e Jorge Amado, como sendo a “verdadeira” capoeira nacional.

      Podemos até inferir que esta elevação da Capoeira de Angola como a mais pura e verdadeira, de certa forma, faz com que tenha se criado no imaginário da sociedade brasileira que a capoeira nada tem de belicosa e de resistência física. Por ter em seu andamento uma forma mais cadenciada e “folclórica”, sem menções de um uso mais prático do que apenas a “vadiação” e o divertimento, a Capoeira de Angola, como foi implementada e tomada pelas autoridades e intelectuais, apaga e descaracteriza toda a história de resistência que a capoeira teve durante o século XIX, tanto no Rio de Janeiro quanto no Recife e em outras cidades do então Brasil Império.

     Não estamos aqui de forma alguma preterindo a Capoeira de Angola, mas sim estamos mostrando que ela de fato não parece ter sido o berço da capoeira, como estes intelectuais afirmaram e que até hoje se acredita. Pesquisas como a de Carlo Eugênio Líbano Soares, Simone Pondé e Vivian Fonseca nos dão provas de que a capoeira não foi somente “dança” e “vadiação”, bem como quebram ainda um grande paradigma que envolvia a história da capoeira: a sua origem rural é contestada.

      Para os novos pesquisadores, incluídos citados acima, a capoeira tem sua origem no meio urbano, onde as relações eram muito mais difíceis para os escravos, libertos e livres pobres, tendo aí neste contexto um meio mais propício para o uso desta ferramenta de defesa.

      Tanto neste artigo, quanto em outro disponibilizado anteriormente no Itan Òbe de Simone Pondé, “A construção coletiva da capoeira autentica”, a autora descaracteriza e traz à luz toda a construção que foi empregada em torno da origem da capoeira e sua deturpação da real função na sociedade. Ler Simone Pondé aliado à Carlos Eugênio Líbano Soares é um passo fundamental para entender todo o processo de construção da capoeira na sociedade brasileira. Continuar a ler

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