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Capoeira: luta ou arte marcial?

Ao adentrarmos o século XX, o espaço étnico-social em que a capoeira estaria inserida seria uma incógnita até meados do século. A grande profusão e a divulgação que tiveram as duas escolas baianas de capoeira, tanto a angola quanto a regional, definiriam um marco dentro da sociedade brasileira.
Ressaltamos que a capoeiragem, tanto no Rio de Janeiro, quanto em São Paulo e nas demais regiões em que se fez presente durante quase todo o século XIX, ainda estava na ativa, o que diferencia a Bahia do restante das outras capitais é a atenção que sociedade, artistas e o próprio governo deram para escolas baianas, e estes argumentos já levantamos e apontamos em discussão anterior no Itan Obe, com o artigo de Simone Pondé.
Ao mesmo tempo em que a capoeira ganha espaço nas academias, ela teria de competir também com outras lutas que passariam a ser introduzidas no Brasil, as chamadas artes marciais orientais, que seriam um competidor ferrenho por espaço e adeptos dentro do meio da luta.
A capoeira passa a perder espaço para essas novas artes já na década de 70 e 80, sendo considerada por muitos obsoleta no quesito contundência e eficiência na hora do combate efetivo. O que poderia ratificar esse argumento é o final trágico dos grandes mestres Bimba e Pastinha, que morrem praticamente na miséria e no esquecimento, sendo este um possível indicativo de que a capoeira não andava bem das pernas e seria necessário uma adaptação para que pudesse fazer frente novamente as artes marciais orientais. O karatê, kung fu, judô, Jiu Jitsu, taekendo e o Muay tay, são algumas das artes orientais que passam a fazer frente a nossa luta nacional.
Somente a “substituição” da arte luta nacional pela estrangeira nos levanta questionamentos que vão além do mundo da luta, nos remetendo que essa substituição traz um caráter tanto social quanto cultural e que também validaria essa troca na sociedade brasileira, mas estes questionamentos podem ser discutidos em futuros encontros. Agora nos deteremos na proposta inicial do texto, que é avaliar se a nossa arte luta pode ser considerada uma arte marcial.
Para que o ressurgimento massivo da capoeira tanto nas academias quanto nas ruas aparecesse no final do século XX, os grupos de capoeira precisavam se reinventar para que arte luta nacional permanecesse viva em todo país. Demonstrações de efetividade nos famosos ringues de vale tudo foram uma forma de manter acesa a chama da capoeira nos meados do século XX. Para além dos combates, a capoeira se atualiza e vai se transformando no que hoje podemos chamar de capoeira contemporânea, um cabedal de cultura negra agregador e chamativo com as introduções do maculele, jongo e samba de roda, processos culturais que já faziam parte do contexto negro, mas que agora, unidos com a capoeira, seriam os difusores e propagadores da cultural afro-brasileira não somente no Brasil, mas também no restante do mundo.
O que podemos depreender é que a nossa capoeira no decorrer destes três séculos sofre inúmeras e consideráveis transformações. Ela surge no século XIX com mais força, sendo literalmente um cancro social para ordem vigente, mas também com uma relação bastante complexa e próxima com a política imperial, considerada um processo de resistência não só do escravo, mas também do liberto e dos brancos marginais daquela sociedade.
Entrando no século XX, ela é inicialmente forçada e jogada para o esquecimento nacional, mas que não dura muito tempo graças aos grandes mestres Bimba e Pastinha que lançam a capoeira novamente nas graças da população e tornam o nosso grande esporte em uma prática nacional. No entanto, para nossa tristeza com o passar dos anos a capoeira vai perdendo o interesse dos brasileiros em detrimento destas novas artes marciais orientais. Entretanto a capoeira passa por mais uma transformação já no final do século XX e ressurge novamente como um dos maiores difusores da nossa cultura em todo o mundo.
Estes grandes ciclos que a capoeira passa são de fundamental importância para que possamos entender e disso tirar os argumentos que nos farão crer se a capoeira pode ser considerada uma arte marcial ou não, mas acreditamos que o primordial agora é dizer o que são artes marciais. De onde vieram? Porque surgiram? E como surgiram? Para que só assim possamos extrair algo proveitoso desse conceito e assim taxar ou não a nossa arte luta como uma arte marcial.
Para usar como exemplo da nossa proposição tomaremos o Kung fu como peça comparativa e de análise, até porque o exercício comparativo com todas as artes marciais orientais mais conhecidas levariam páginas e mais páginas de discussão, o que estenderia por demais este artigo, fugindo desta forma do intuito sucinto do Itan òbe. Essa escolha parte de pressupostos históricos que datam esta arte marcial como uma das mais antigas, se não a mais velha arte marcial oriental conhecida.
O Kung fu tem sua origem nos tempos pré-históricos e com o propósito da defesa das tribos na defesa contra animais e tribos rivais, ou seja, ele era aceito por aquela sociedade e usado por ela, por indivíduos compostos por ela, logo de cara percebemos uma vital diferença entre o Kung fu e a capoeira, sua aceitação pelos que a sua volta estavam e o seu propósito final.
Desta luta pré-histórica, o Kung fu só passa a evoluir enquanto luta e como filosofia de vida. Nos damos direito de denominar esta luta como Kung fu para que seja facilitado o entendimento do leitor, mas artigos que versam sobre essa parte da história da arte marcial não a denominavam ainda com esta classificação.
A evolução do Kung fu se dá enquanto arte marcial por volta do século V com a fundação do templo Shao Lin, a partir deste momento as diversas formas e estilos de Kung fu passam a pontilhar em diversas regiões da China com suas características próprias e origens diversas, mas que seguiam o conceito filosófico do Kung fu, que é o trabalho duro e o treinamento constante.
A capoeira, além de não ser aceita pela sociedade, era praticada inicialmente por escravos, que eram os renegados e a parte podre e feia do ambiente citadino. Assim, o agente criador e replicador da arte não era nem considerado um cidadão politicamente ativo daquela sociedade, era meramente uma “coisa”, uma mercadoria com valor e aplicabilidade certa.
O capoeira era um vilão temido que transitava pelas ruas e vielas das grandes cidades brasileiras e que muitas vezes não era incomodado pelo receio de sua reação. Mas era só o capoeira que era preso e açoitado apenas por ser capoeira, fato este que não encontramos, por exemplo, no Kung fu e nem no Muay thai, no karatê ou no taekwondo, por exemplo.
Além da diferença no que se refere à questão social de identificação que as artes marciais orientais tiveram e têm com suas sociedades, a sua aplicabilidade na época foi outra, o seu uso não era apenas para a proteção individual, mas acabou sendo a arma de proteção de seus Estados políticos.
O Kung fu, o karatê, o Muay thai e até mesmo o taekwondo foram usados por seus Estados de uma forma bélica e defensora, caracterizando desta forma a nomenclatura “arte marcial”, ou seja, a arte usada para fins militares, um termo de origem latina que remete ao deus grego Ares, que significa “arte da guerra ensina aos homens”.
Exposto isto, podemos chegar a algumas conclusões no que se refere ao enquadramento da capoeira como uma arte marcial. A capoeira em seu surgimento foi usada na defesa de um grupo ou Estado político? Ela era aceita e usada na defesa daquela sociedade? O seu praticante era membro daquela sociedade e um ativo social e político da mesma? No decorrer de sua história ela é abraçada pela sociedade da qual ela surge e usada militarmente como defesa e esporte?
Estas são apenas algumas questões que podemos levantar e que podemos responder juntos, mas, para nós do Itan Òbe, quando respondidas não serão suficientes para que possamos enquadrar a capoeira como uma “arte marcial brasileira”, acreditamos que a capoeira não precisa ser considerada uma arte marcial para ser reconhecida e respeitada.
A capoeira para nós é mais do que uma arte marcial, também inclui uma filosofia de vida e um condicionamento físico necessário para a prática e desenvolvimento, além da questão do preconceito e da exclusão que esta arte luta possui, a musicalidade e a religiosidade que a capoeira carrega são únicas quando comparamos com as demais artes orientais.
Assim, acreditamos que não seja necessário e muito menos justo com a nossa arte quando a enquadramos somente como uma arte marcial. A capoeira é arte, é luta, é resistência, é filosofia de vida, é religião, e quando falamos em religião nos remetemos ao ritual e à ligação que o praticante tem com seu mestre e seus companheiros, é cultura e é música.
Não precisamos de enquadramentos e classificações para determinar a posição da capoeira no mundo e mais especificamente no Brasil. Precisamos na realidade do reconhecimento que a capoeira realmente merece, a capoeira não precisa ser chamada de arte marcial para ser reconhecida como uma luta efetiva, isso a nossa história já mostra, o quanto ela foi eficaz e perigosa.

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Esporte Sangrento

      Only the Strong é de 1993 e para nós é mais conhecido como “Esporte Sangrento”. O que nos chama a atenção nessa produção não é apenas o fato de ser uma produção estadunindense, mas por ser a capoeira praticamente o ponto central da trama. É através da capoeira que o nosso personagem principal consegue transformar jovens problemáticos em “homens de bem” naquela sociedade.

      O que nos salta aos olhos logo na abertura do filme é a paisagem: o que vemos é uma densa selva, nos remetendo ao caráter selvagem que a capoeira provavelmente tem para os produtores e demais responsáveis pelo filme. Um pouco daquela ideia de que este esporte é brutal por vir de um local onde somente os mais selvagens sobrevivem e vivem.

      Estamos em 1993, mas o nosso personagem, que é um Boina Verde, aprende a capoeira no coração da selva e não em qualquer outra cidade brasileira, que já na época eram polos de difusão da capoeira, como a própria Salvador e o Rio de Janeiro. O que nos incomoda é que o mocinho aprende na selva e o “bandido” na pior favela do Rio de Janeiro. Percebe-se não só preconceitos, mas uma pitada de inferioridade colonizado-colonizador.

      Afinal, o que fazem os Boinas Verdes na selva amazônica? Que intervenção militar é essa que os americanos fazem em território brasileiro? Podemos perceber esse desconforto quando o superior do nosso “herói” chega à aldeia onde acontecia uma roda de capoeira e a festa é interrompida imediatamente. Os olhares são claramente de irritação e desconforto por parte dos moradores.

    O que podemos inferir com esta pequena e introdutória cena é que, além de nos verem como fracos soberanamente, pois precisamos de intervenção militar dos famosos Boinas Verdes, consideram nossa luta brutal e selvagem, ligando a sua prática ao que há de animalesco e tribal no povo brasileiro.

     Queremos salientar que essa não é uma visão extremista e surreal que temos do filme e de sua produção. Devemos lembrar que estávamos já na década de 90 do século XX, assim sendo o mundo já nos conhecia e sabiam muito bem quem éramos e de onde viemos e o que de fato fazíamos.

    Percepções da realidade brasileira e da capoeira como essas foram levantadas nos primeiros 5 minutos de filme, provando a existência marcante do preconceito dos ditos países desenvolvidos com os países ainda em desenvolvimento. Estávamos na época em um processo de construção democrática, pós-ditadura e impeachment do Collor. Estaríamos iniciando naquele ano um novo processo político, que no ano seguinte culminaria com o plano real e o início do nosso desatolamento financeiro e político. Não menos importante: em 1994 iríamos para os EUA e venceríamos o torneio de futebol mais importante do mundo.

    Ideias como essa de subordinação cultural e social jamais devem ser toleradas por nós. Devemos combater firmemente a ideia que de somos somente o paraíso sexual dos gringos e que somos apenas o país do futebol, do samba e da mulata reboladeira. O filme, apesar de ter seu início todo carregado de preconceito, também traz consigo elementos importantes.

      Por mais que seja um divulgador ambulante de preconceitos, não podemos negar que Esporte Sangrento foi, em muita medida, a mola propulsora da divulgação da capoeira no mundo. Não só de crítica negativa é feita esta análise: o filme mostra a face agregadora e sem preconceitos da capoeira, onde todos, de todas as etnias e classes sociais, podem dela usar e nela conviver de forma harmônica.

   Esse conceito agregador e disciplinador da capoeira que aparece no filme usado para recuperar jovens “problemáticos” está em pleno exercício por diversos grupos de capoeira espalhados pelo país, muitas vezes sob a forma de projetos sociais e projetos escolares. Esporte Sangrento seria somente mais um filme clichê de ação estadunidense, onde temos o mocinho, o bandido e a bela donzela, mas, diferentemente de muitos, o filme dá um destaque mais do que especial para a nossa arte-luta.

    Portanto, ressalvadas as questões teóricas, metodológicas e sociais que envolvem a produção do filme, não podemos negar a sua importância no cenário mundial e como colocou a capoeira em um destaque que até então não se conhecia.

      Assim, desfrutemos desta produção, mas com nossos olhos e ouvidos muito atentos ao que é dito e reproduzido e lembremos que a nossa arte-luta evoluiu muito de lá pra cá em todos os aspectos, tanto musical, quanto físico e didático. Então, mentes abertas e sempre críticas.

Bom Filme!

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