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Capoeira Angola X Capoeira Regional: um debate necessário

     Marcio Teixeira Lopes, no início do texto, faz um rápido panorama político-estrutural da cidade do Rio de Janeiro, durante a transição do império para a república, apontando indícios das formações das favelas e cortiços como obra da reestruturação física da cidade, ao mostrar, por exemplo, as teorias de higienização tiveram papel fundamental para a discriminação racial.

      O negro e a manifestação pública da sua cultura eram para aquela sociedade um cancro, que deveria ser extirpado. O autor lança um motivo forte para a repressão cultural negra que vinha sendo utilizada após a abolição, deixando implícito que a sociedade trata não só o negro, mas o pobre também como “marginal”, mas é essa mesma sociedade quem cria esta situação excluindo e segregando.

      O que pode ser extraído desse apontamento feito pelo autor é que mesmo após a abolição o negro não passava de uma “peça” que antes era “útil” e rendia dinheiro, mas agora não mais. A sua “livre” circulação pelas ruas as deixava, aos olhos higienistas, mais sujas e essa sujeira deveria ser varrida para longe dos olhos da alta sociedade.

    A partir disso levanta-se uma questão: Por que a capoeira é aos poucos aceita e finalmente liberada em 1953? Que mudança drástica ocorreu para que em menos de 30 anos o personagem que mais causou transtornos ao meio social citadino fosse agora ungido como representante nacional e sua prática como o esporte do país?

     Como o próprio autor aponta muito lucidamente, a capoeira, em meados da década 30 do século XX, só é “suportada” porque sua essência é completamente modificada. A resistência é substituída pela dança e pelo folclore e a luta é substituída pelo plástico e pelo acrobático.

    É nesse ponto que se pode fazer uma inferência referindo-se ao texto de Simone Pondé, disponibilizado anteriormente no Itan Òbe, onde a autora discorre sobre essa transição da capoeira, mostrando que é nesse momento em que se “cria” e se denomina a capoeira angola como verdadeira e tradicional, capoeira esta regada a folclore e praticamente nenhuma resistência física.

      A libertação total da capoeira após a Segunda Guerra é fato de grande relevância. O negro e sua cultura são duramente reprimidos durante a primeira metade do século XX. Em um tempo de ideias eugênicas e de uma raça pura reinando no mundo, o Brasil, país miscigenado e negro, estava atrasado no processo de “evolução” aos olhos eugênicos, deveria ficar branco em todos os sentidos, prova disso é o grande incentivo da imigração branca para o Brasil para serem empregados como mão de obra. A moda agora, como elucida Luiz Carlos Soares em seu livro “O povo de Cam na capital no Brasil”, era ter em sua casa o criado branco, mesmo tendo à disposição muitos braços negros recém libertos.

    O horror que a Segunda Guerra causou ao mundo, impulsionada também pelo objetivo da construção da raça pura, é que desencadeou a mudança drástica no pensamento nacional acerca do que deveria ser considerado puro ou não. Chega-se à conclusão de que era através da mistura que se teria o melhor do povo, as políticas mudam e o que antes era rechaçado agora era tido como nacional e verdadeiro.

       Aos poucos o “jeito negro de ser”, antes proibido, passa a ser libertado, a capoeira, com todas as suas mudanças e manipulações, é aceita como o esporte nacional, o samba como ritmo brasileiro. O capoeirista continua aos olhos da sociedade sendo rotulado de malandro e vadio, a imagem que a sociedade criou da capoeira e do capoeirista irão persistir por muito tempo.

      No transcorrer do texto o autor faz o embate entre as duas formas de capoeira que surgiram na década de 30. É uma boa análise e com apontamentos interessantes, mas para quem leu o texto de Simone Pondé é possível perceber que esse autor não o fez, mas de todo jeito é uma boa leitura.

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