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“Resistência ou conflito? O legado folclorista nas atuais representações do jogo da capoeira”

       A afirmação da capoeira enquanto “esporte nacional” ou “luta nacional” está inserida no grande processo de construção de uma “nacionalidade brasileira” iniciada por Getúlio Vargas a partir da década de 30 do século do XX. Questões como pureza, tradição, originalidade e natureza da capoeira são os pontos selecionados para se caracterizar a capoeira que seria a “verdadeira”.

       A discussão que estava em voga na segunda metade do século XX era a oposição do tradicional versus moderno, com a valorização do tradicional para que se pudesse “construir uma nacionalidade brasileira” pelo viés da mestiçagem. É nesse contexto que a origem, natureza e razão da capoeira são construídas, como Simone Pondé aponta em seu texto.

      É por estas razões, que Simone Pondé trabalha em seu texto com mais vagar e profundidade, que se pretere a capoeira praticada no Rio de Janeiro com o pretexto desta ser influenciada pela modernidade e não ser mais “pura”, ser contaminada por outras formas de luta. A folclorização da capoeira com a desculpa de “resgatar” o tradicional é à base de sustentação do grande sucesso da Capoeira de Angola, que foi impulsionada e “legitimada” por diversos intelectuais da época, como Edison Carneiro e Jorge Amado, como sendo a “verdadeira” capoeira nacional.

      Podemos até inferir que esta elevação da Capoeira de Angola como a mais pura e verdadeira, de certa forma, faz com que tenha se criado no imaginário da sociedade brasileira que a capoeira nada tem de belicosa e de resistência física. Por ter em seu andamento uma forma mais cadenciada e “folclórica”, sem menções de um uso mais prático do que apenas a “vadiação” e o divertimento, a Capoeira de Angola, como foi implementada e tomada pelas autoridades e intelectuais, apaga e descaracteriza toda a história de resistência que a capoeira teve durante o século XIX, tanto no Rio de Janeiro quanto no Recife e em outras cidades do então Brasil Império.

     Não estamos aqui de forma alguma preterindo a Capoeira de Angola, mas sim estamos mostrando que ela de fato não parece ter sido o berço da capoeira, como estes intelectuais afirmaram e que até hoje se acredita. Pesquisas como a de Carlo Eugênio Líbano Soares, Simone Pondé e Vivian Fonseca nos dão provas de que a capoeira não foi somente “dança” e “vadiação”, bem como quebram ainda um grande paradigma que envolvia a história da capoeira: a sua origem rural é contestada.

      Para os novos pesquisadores, incluídos citados acima, a capoeira tem sua origem no meio urbano, onde as relações eram muito mais difíceis para os escravos, libertos e livres pobres, tendo aí neste contexto um meio mais propício para o uso desta ferramenta de defesa.

      Tanto neste artigo, quanto em outro disponibilizado anteriormente no Itan Òbe de Simone Pondé, “A construção coletiva da capoeira autentica”, a autora descaracteriza e traz à luz toda a construção que foi empregada em torno da origem da capoeira e sua deturpação da real função na sociedade. Ler Simone Pondé aliado à Carlos Eugênio Líbano Soares é um passo fundamental para entender todo o processo de construção da capoeira na sociedade brasileira. Continuar a ler

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