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A Negrada Instituição

    O que disponibilizamos no Itan Òbe é para nós um marco na mudança da historiografia brasileira no que tange o universo da capoeira. A Negrada Instituição serviu e ainda serve como referência para novas pesquisas que passaram a surgir no final do século XX e inicio do século XXI. A mudança de paradigma que o autor utiliza para tratar a contextualização da capoeira e sua posição na sociedade foi inegavelmente inovador e balizado historiograficamente.

    Carlos Eugênio Líbano Soares, utiliza fontes que não eram muito usadas por historiadores brasileiros, fontes judiciais e policiais que até então não poderiam trazer um panorama social passam a ser mais largamente utilizadas, mas não somente Carlos Eugênio, como também estudiosos da escravidão passam há ter neste tipo de fonte uma nova base para pesquisa, conseguindo através deste arcabouço teórico traçar não somente a situação social, mas também até como viviam essa parcela da sociedade tão densa, mas extremamente reprimida.

    O que estamos referendando não é apenas uma tese de mestrado, mas sim uma nova forma de ver a capoeira dentro da nossa sociedade e com uma importância muito maior do que poderíamos imaginar. Negrada Instituição é apenas a ponta deste iceberg literário e historiográfico que circunda o mundo da capoeira, obras vieram depois e muitas ainda virão para tratar da capoeira como ela merece e deve ser representada dentro do nosso país, pois para nós que vivemos no mundo da mandinga sabemos que a capoeira não é apenas uma luta ou um esporte, mas sim um estilo de vida.

     Portanto, recomendamos que leiam e entrem neste mundo mágico que são os “descobrimentos” e as histórias maravilhosas que esta obra nos traz.

A Negrada Instituição

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13 de maio: Liberdade ou Repressão?

        A libertação dos escravos se deu pela Lei Áurea, no dia 13 de maio de 1888, mas na prática sabe-se que não ocorreu. O escravo que antes trabalhava em engenhos, fazendas ou nas cidades, após a assinatura da lei é mais duramente excluído da sociedade. O negro passa a não ser aproveitado como força de trabalho, o preconceito em relação à cor se torna mais forte baseado nas políticas eugênicas que começam em meados do século XIX e passam a valer com mais força no Brasil nas primeiras décadas do século XX.

       Teorias de raça, como por exemplo, a de Francis Glaton, se encaixa perfeitamente nos pressupostos da República para discriminar e reprimir. O determinismo racial empregado pela eugenia, onde determinadas características são deliberadamente atribuídas a “raças distintas”, classifica e escalona a sociedade brasileira pela cor. A sociedade tem agora base científica para discriminar e hostilizar o negro. Dentro deste panorama, o negro representa para o país tudo o que há de ruim e de atrasado. O escravo é liberto pela lei, mas não é reconhecido como cidadão e membro da sociedade e se torna prisioneiro dentro dessa mesma tão sonhada liberdade. Para a sociedade o negro não possuía habilidades suficientes para exercer determinadas funções.

    Ao negro e seus descendentes foi vetada a chance ao estudo que consequentemente o qualificaria para exercer atividade remunerada mais rentável e de maior reconhecimento socioeconômico. A sociedade exclui o negro tanto da oportunidade de melhora social como do espaço físico.

      As reformas urbanas que passam a ocorrer nas cidades no final do século XIX e início do XX são provas da exclusão não só do negro, mas também do pobre e do imigrante indesejado. A formação das favelas do Rio de Janeiro, hoje grandes conglomerados de casas sobrepostas de má infraestrutura, são resquícios da limpeza étnica que ocorreu na região central da cidade.

      O negro e o pobre são marginalizados e excluídos na tentativa de extinguir essa parte da sociedade do cenário não só do Rio de Janeiro, mas do país como um todo. Funções braçais e de nenhum prestigio social são o que sobra aos escravos. Profissões como a do estivador, do varredor de rua, do engraxate, da doméstica passam a ser estabelecidas vulgarmente como “trabalho de negro”, resquício que ainda perdura.

     Assim como todo negro, quando transitando de madrugada, é visto com receio e medo de ser este cidadão um assaltante ou estuprador, receio este que talvez não existisse se este mesmo cidadão fosse branco e loiro. O próprio sistema de segurança público até hoje tem nesse grupo da sociedade o alvo das maiores abordagens para averiguação.

       O “dia de branco” simbolizando um dia árduo de trabalho e, por oposição, o “dia de negro” simbolizando o dia folga, da preguiça, são prova cabal do preconceito que ainda existe no país, mesmo que de forma velada. Muitas expressões ou palavras que se usa para menosprezar, descriminar e macular de certa forma vem da associação ao negro, como por exemplo, “denegrir” ou “a coisa ficou preta”.

       E a repressão ao negro só passa a piorar com o passar dos anos, tanto social como culturalmente, quando a capoeira é proibida, o candomblé é proibido e o samba é proibido. Toda e qualquer manifestação negra é proibida.

    Diante dos fatos será possível dizer que em 13 de maio de 1888 o escravo foi liberto? Arriscar-se a dizer que o negro está se libertando até hoje é pertinente, uma vez que conquistas substanciais só ocorreram no decorrer do século XX, com a capoeira e o samba liberados e, posteriormente, o candomblé, mas fica a pergunta: sob quais condições?

       Cada manifestação cultural de origem negra sem dúvida tomaria muitas mais linhas de debate, mas a capoeira é tema central deste blog. Em 1890 o maior problema que a capital do Império impôs, e também ao longo do século XIX, foi a proibição por lei da capoeira que, diga-se de passagem, foi muito usada pelos políticos do Império como arma eleitoral.

      A capoeira só é reconhecida pela sociedade como algo efetivamente nacional a partir de 1930, com a política de nacionalização proposta por Getúlio Vargas, que queria construir uma “identidade nacional” para o Brasil. O futebol é outra vertente usada por Vargas para montar o quebra-cabeça da nacionalidade brasileira. De origem inglesa, é institucionalizado no Brasil como “paixão nacional” e usado por Vargas como política de pão e circo, dando à população o divertimento e calando sua voz política.

      O futebol cai de vez no gosto da população quando em 1950 ocorre a primeira Copa do Mundo de Futebol no Brasil, arraigando cada vez mais fortemente no imaginário social a ideia de que o Brasil é o país do futebol. Será a sua origem europeia que faz com que o futebol fosse mais fortemente estabelecido no ideário da população do que a capoeira, que é naturalmente brasileira e criada pela mistura de etnias?

    O que de fato poderia ser considerado nacional no Brasil, em que a única coisa legitimamente nacional é a mistura das raças? A produção cultural dissidente da mistura era por Vargas considerada de certa forma como autêntica e a capoeira entra nesse cenário como o verdadeiro esporte brasileiro.

     De que capoeira, contudo, está se falando? A capoeira de resistência que proliferou nas ruas do Rio de Janeiro, Recife e Salvador e em outras partes, como uma doença praticamente incurável, ou a capoeira lúdica e folclórica criada na Bahia já no final do século XIX e início do XX, apropriada por nós através do Mestre Pastinha? Há essa oposição e/ou em quais termos há? Como e por que comemorar 13 de maio? Será que datas como a liberação da capoeira, do samba e do candomblé não deveriam ser a direção mais precisa e justa do olhar?

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