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Capoeira, Identidade e Gênero

     Capoeira, identidade e gênero é o trabalho resultante da união de dois historiadores apaixonados pela capoeira que, com muita maestria e desenvoltura historiográfica, produziram uma obra que para muitos passaria desapercebida, mas com um enorme valor para nós amantes da capoeira e de um excelente trabalho historiográfico.

      Josivaldo Pires de Oliveira e Luiz Augusto Pinheiro Leal nos fornecem um maravilhoso parâmetro para a capoeira e seus imbricamentos sociais, não somente em uma região apenas, mas em diversos pontos do nosso vasto território, e esta possibilidade é fornecida por eles devido às suas pesquisas predecessoras, onde encontramos Salvador, Rio de Janeiro, Belém e Recife como matéria de análises dos autores em momentos diversos de suas carreiras acadêmicas.

       Um aspecto que devemos ressaltar nesta obra é a fluidez e a forma simples com que foi escrita. Assim, além de uma obra deliciosa de se ler onde nos perdemos nas façanhas e nos meandros que nos são relatados, o acesso à obra é amplo e democrático socialmente, não sendo desta forma restrito apenas ao público acadêmico.

      Outro aspecto diferencial que a obra nos proporciona é a abertura de novas frentes de pesquisa e estudo, assim como as grandes obras que do assunto tratam, como as de Carlos Eugênio Líbano Soares. Os autores trabalham bem os assuntos a que se propõem e não tecem suposições sem ao menos um embasamento teórico e metodológico.

      Percebemos na obra uma grande preocupação dos autores em respaldar suas teorias e prospecções sobre os temas abordados no decorrer do livro, o que nos dá uma boa impressão e confiança no trabalho desenvolvido pelos nossos autores.

    Capoeira, identidade e gênero é mais um excelente livro de cabeceira para todo e qualquer amante da nossa arte-luta que pretende enriquecer um pouco mais o seu conhecimento histórico e social não somente sobre capoeira, mas sobre as diversas manifestações culturais que permeiam o mundo da capoeira.

Segue abaixo o link para download:

Livro Capoeira, Identidade e Gênero

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Somos, sim, a geração do Mimimi

tumblr_nsozkuvBqf1r0aiuuo1_1280    A cada dia que passa encontramos um número crescente de posts nas redes sociais de críticas entusiasmadas à famosa geração do mimimi. Geração, que aos olhos infelizmente de muitos em nossa sociedade, só reclama ou se sente constrangida, ou ofendida, ou até difamada por comentários e ações e muitas vezes a combinação destes dois.

    O maior argumento que vemos é o velho discurso: “Na minha época não existia esse negócio de bullying, a gente zuava e ninguém morreu por causa disso, hoje as crianças têm problemas emocionais com isso, a geração fraca do mimimi”. Este é apenas um exemplo, outro seria: “Hoje não podemos chamar um viado de viado, ou um traveco de traveco, porque é preconceito, homofobia, o mundo está mais chato”. Será mesmo que o mundo ficou, como diriam essas pessoas – mais “colorido” – no sentido pejorativo da palavra? Ou apenas de fato estamos nos civilizando e deixando de lado todo o ranço separatista, preconceituoso e homofóbico que nossa sociedade sempre teve?

     Se ir contra este tipo de argumento é ser da geração do mimimi, então temos o prazer de dizer que pertencemos a ela. Se isso é saber respeitar o outro quanto à sua orientação sexual, ou não fazer piadas ou comentários racistas ou sexistas em pleno século XXI achando isso engraçado e usando o velho argumento de que sempre aconteceu e então é normal, então temos mais uma vez o prazer de dizer que somos, sim, a geração do mimimi.

   Enquanto algumas pessoas acharem normal excluir, maltratar ou xingar um colega de escola porque ele é diferente, acreditando que isso não afetará o seu desenvolvimento psicossocial e que não passa de “frescura”, seremos com um imenso prazer novamente a geração do mimimi. Estes são apenas alguns pontos e para pessoas sensatas em momento algum deveriam ser frescuras ou coisas sem sentido.

   Se defender uma sociedade igualitária para todos é ser da geração do mimimi, então com prazer somos esta geração. Ter a consciência de que fazer comentários pejorativos, ou agredir fisicamente uma pessoa por sua orientação sexual é sim, uma boçalidade – então devemos ser a geração do mimimi. Precisamos entender que o Estado enquanto alicerce da sociedade não pode ser movido ou pender por religião alguma, as escolhas do indivíduo enquanto personagem ativo da sociedade devem ser mantidas. Os rotuladores do mimimi não precisam compreender somente respeitar, respeitar a escolha, respeitar a diferença e ser imparcial.

   Ao longo da história, acompanhamos as consequências de atitudes totalitárias e tendenciosas. Vimos que o desfecho não foi belo e muito menos satisfatório para ninguém. A escravidão no Brasil, endossada pelo argumento de que o negro não tinha alma, não era gente e sim coisa, foi em todos os sentidos penosa para o país, foram mais de 300 anos de escravidão em uma nação com 500.

   Esse é um ranço que será difícil de ser retirado ainda mais enquanto ainda existirem pessoas que acreditam e propagam que nada existe de preconceito, mas que são as primeiras a falar que nas comunidades só tem bandido. Aquelas comunidades majoritariamente são compostas por afrodescendentes. Dizem que não existe racismo, e são os primeiros a quererem a cadeia e a morte dos bandidos, mas apenas alguns, pois os ditos bem nascidos quando cometem delitos nem passam pelas celas carcerárias. Este é um dado que pode ser visto no tão afamado Google, para aqueles que acreditam ser este um dado ilógico.

   Como acreditar que não existe preconceito entranhado em nossa sociedade quando brigamos ou ouvimos alguém brigar com um negro e o primeiro xingamento que ouvimos é ‘seu preto filha da puta’, ou seja, quando dizemos isso usamos de eufemismo, a cor é um dado passível de escárnio, não pela cor em si, mas pelo histórico que ela nos remete, de servidão, condição e cultura. Este fato não ocorre quando presenciamos uma briga entre brancos. A sua condição de branco não é e nunca foi fator pejorativo.

    Se ser contra tudo isso é ser da geração do mimimi, nós ficaremos felizes em dizer a todos que somos desta geração e que apoiamos esta geração. Muitas pessoas reclamam que hoje não se pode falar ou fazer nada que pode ferir alguém e isso pode acarretar processo ou prisão, mas se até algum tempo atrás estas pessoas eram difamadas, xingadas, agredidas e excluídas e a sociedade nada fez para que isso cessasse sem a intervenção do Estado.

   Desta forma não podem reclamar que para se fazer cumprir uma justiça social ela venha com punições restritivas de liberdade. Enquanto alguns ainda entenderem ou acreditarem que são melhores por sua cor de pele, padrão social ou orientação sexual, esses mecanismos têm sim que entrar em vigor de forma rígida e com a aplicabilidade certa.

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