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O Feminismo e a Capoeira de Resistência

Faz alguns dias que tomamos conhecimento de um vídeo que tem circulado pelas redes sociais no qual vemos um professor de um determinado grupo aplicando golpes traumatizantes em uma jogadora nitidamente menor fisicamente e de graduação inferior à sua. Para além desta agressão desmedida, acreditamos que o pior neste episódio foram as declarações de apoio ao agressor com a justificativa de que a jogadora “provocou”, aquele famoso ditado “se bateu aguente as consequências”.
Apenas com esse episódio podemos extrair diversos pontos desta ação irresponsável. Um dos pontos usados para o comparativo é a tão falada capoeira de resistência do século XIX, muitas vezes idealizada como uma luta do escravo, do liberto e do marginalizado contra um sistema de repressão social e cultural, fato este que não pode ser encarado bem assim, pois sabemos hoje que não foi dessa forma o desenrolar da história. As pesquisas mais profundas no cotidiano citadino da época nos mostram que a capoeira era infinitamente mais usada contra os próprios capoeiras e escravos do que contra os senhores e o sistema político. Carlos Eugênio Líbano Soares em suas duas obras clássicas aponta esse cenário.
A partir deste contexto de disputa por territórios entre as maltas e que posteriormente foi transportado para uma disputa entre escolas ou grupos, como fica latente nos embates do início do século XX entre escolas e grupos do Rio de Janeiro e de Salvador, por exemplo. Esse tipo de ação nos dá uma amostra de que a capoeira nunca se uniu, ela viveu e ainda vive para que um grupo A se diga mais eficiente que um grupo B ou que grupo B seja mais consciente e divulgador da cultura afro-brasileira que grupo A. Não havia uniformidade e não havia união e não existe ainda hoje. Digo isso não por acreditar ser errado haver diversos sentidos e movimentos dentro da capoeira, explicito porque, por mais que sejam diferentes, não criaram uma união dentro da diversidade, mas sim uma competição.
Na época da tão afamada capoeira de resistência, a briga era por espaço e domínio através do medo e da navalhada. Hoje a briga é mercadológica e financeira, sobre quem tem o maior grupo, que grupo ensina melhor seus discípulos a se defenderem e com mais efetividade, ou ainda que grupo preserva melhor a nossa cultura. Essa disputa macro entre os grupos gera uma disputa micro dentro dos grupos, disputa por espaço e destaque aos olhos do mestre e dos menos graduados que passam a idolatrar esses proto-capoeiras, em certo sentido deuses dentro daquele meio. A vaidade incrivelmente é uma marca que aparece dentro do meio da capoeira desde os seus primórdios, onde capoeira bom era aquele que não era tocado nem derrubado, e que muito menos levava desaforo para casa.
O mais incrível é que esse tipo de comportamento, que remonta a mais de 200 anos, ainda está presente dentro das rodas de demonstração e de treino nas diversas academias e grupos espalhados pelo Brasil. O fato de um capoeira mais graduado não aceitar ser apenas tocado por um aluno menos graduado e se sentir no direito de não apenas repreender, mas agredir, de forma desmedida, mostra não só um despreparo como um retrocesso deste grupo em repensar a nossa realidade. Pessoas que pregam este tipo de comportamento estão vivendo ainda no século XIX e não podem ser chamados de capoeiras, educadores ou professores.
Para além destas questões, o que para nós do Itan Òbe fica ainda mais grave é que a vítima desta agressão foi uma mulher nitidamente menor fisicamente e muito menos experiente dentro do jogo da capoeira. O que torna ainda pior esta agressão é que, além de ser uma covardia devido a diferença física dos dois jogadores, foi uma atitude de fundo opressora e machista. Muitos dirão que vivemos em um período de igualdade entre homens e mulheres e, assim sendo, da mesma forma que ela agride seu oponente ele tem todo o direito de revidar.
Vamos então tentar ser didáticos para aqueles que entendem o feminismo como um aval para responder tudo à altura, independentemente das diferenças físicas ou não. O feminismo prega a igualdade de direitos entre homens e mulheres, direito ao mesmo salário quando ocupam o mesmo cargo, direito às mesmas posições, por exemplo, dentro de um grupo de capoeira (onde o que é levado em conta é sua capacidade e habilidades), direito a ter mesma voz em todos os espaços, assim como quando são atacadas. Em nossa sociedade temos enraizado que uma mulher que responde a altura uma agressão é histérica, louca ou descontrolada, ou, quando essa mulher mostra conhecimento, suas falas em muitos casos são deslegitimadas. Quando uma mulher passa a ser atacada, logo surge a conotação sexual e depreciativa. Em nossa sociedade a formação dos nossos homens e mulheres é assim, com o repasse das tradições conservadoras e machistas que se perpetuam e que fazem com que atitudes como essa do professor sejam ainda corriqueiras. Na realidade, o homem ainda quer dominar psicologicamente e fisicamente a mulher,herdeiro ainda da tradição patriarcal e castradora. O machismo está mais do que vivo e em movimento.
E a capoeira não está livre deste cancro. Para aqueles que acompanham rodas e eventos, não importando o grupo ou escola, vai perceber que se uma mulher marcar uma rasteira ou um martelo, as consequências serão mais severas e violentas (atentem para o fato de que eu disse ‘marcar’ e não ‘aplicar’). A partir deste momento aqueles segundos serão infernais para aquela jogadora. O homem mais graduado não aceita esse tipo de “ousadia” vindo de um homem, quanto mais de uma mulher. Nesta hora que percebemos o machismo latente que ganha impulso maior ainda devido ao ego e vaidade que a capoeira carrega.
O machismo é uma prática bastante corrente dentro da capoeira e historicamente vem carregando isso desde os tempos da escravidão. Poucas são as grandes mulheres que tomamos conhecimento hoje que desafiaram a ordem política e social através das pernadas e cabeçadas. O desinteresse e, em certo sentido, a ilusão de que as mulheres não teriam vez dentro da capoeira está atrelado ao desinteresse que vem primeiro, o da ausência, proibição e distanciamento histórico das mulheres nos espaços de produção de conhecimento; segundo, o peso machista e desprestigiador dos homens pesquisadores em relação às mulheres, ao interesse de estudar sua história, assim como a falta de necessidade e importância que teria esse recorte por eles, num tempo em que a importância feminina era muito mais subjugada do que hoje. Maria Doze Homens, Calça Rala, Satanás, Nega Didi e Maria Para Bonde são alguns dos exemplos que surgem já no século XX e que ganharam destaque nas pesquisas de campo. Jornais e autos de prisão são provas de que a mulher estava sim presente nas rodas e nas confusões da capoeiragem não só de Salvador, como também nas principais capitais.
Por mais que a pesquisa, não só da capoeira, mas da história negra como um todo, esteja em pleno progresso, há ainda muito o que desvendar e estudar. É mais do que sabido e comprovado que nas ruas a presença da mulher era muito mais marcante do que imaginamos: as negras de ganho, as empregadas das sinhazinhas, as prostituídas e as prostitutas, possuíam uma liberdade relativamente maior que os escravos homens que na maioria dos casos estavam atrelados a trabalhos mais fiscalizados e regidos pelo seu senhor. Desta forma, a possibilidade de uma escrava ou liberta, e a taxa de alforrias era maior entre as mulheres, ingressar no mundo da capoeiragem era muito grande, mas pouco nos chega sobre as mulheres e sua participação nas maltas e nas confusões nas ruas.
A mulher a cada dia está buscando o espaço que é dela por direito e infelizmente em determinados espaços ela ainda é preterida ou subjugada. Na capoeira, um espaço predominantemente masculino, o ingresso da mulher tem sido aos poucos e com muita dificuldade. Em pleno século XXI poucos são os grupos que têm mulheres nas graduações mais elevadas. Em diversos casos não lhes faltam competência. O discurso mais furado que encontramos nas aulas é: “Não importa que você caia, mas sim como você vai levantar”. De fato esse conceito ainda não existe dentro capoeira.
São atitudes como esta agressão que nos trouxe à discussão que acabam por minar a participação das mulheres na capoeira. Mulheres que queriam apenas se divertir em um esporte-luta maravilhoso como o nosso, ou que queriam aprender uma defesa, uma forma de resistência às opressões atuais, ou ainda que queiram competir, se graduar e ensinar novos capoeiras, acabam saindo, porque, como ocorre em diversos grupos, essas mulheres e também os homens que não correspondam ao “padrão” capoeira, acabam migrando para outro esporte e fazendo uma propaganda negativa do nosso esporte
A capoeira com toda sua história não deveria produzir ações desagregadoras. Parece que não aprendemos com a história e muitas vezes a ignoramos. A história deve ser base para entender os processos do passado e tentar não replicá-lo, mas infelizmente isso não ocorre e a cada dia que passa vemos posições extremadas e preconceituosas, mesmo com eventos historicamente delineados e pesquisados.
A capoeira tem que de fato se transformar em resistência, a capoeira tem que resistir ao preconceito racial, ao machismo, ao sexismo e à misoginia. Uma manifestação cultural que tanto sofreu repressão e preconceito deve ser baluarte na luta contra qualquer tipo de discriminação e não mais um reprodutor e propagador de tais discursos.

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Capoeira: luta ou arte marcial?

Ao adentrarmos o século XX, o espaço étnico-social em que a capoeira estaria inserida seria uma incógnita até meados do século. A grande profusão e a divulgação que tiveram as duas escolas baianas de capoeira, tanto a angola quanto a regional, definiriam um marco dentro da sociedade brasileira.
Ressaltamos que a capoeiragem, tanto no Rio de Janeiro, quanto em São Paulo e nas demais regiões em que se fez presente durante quase todo o século XIX, ainda estava na ativa, o que diferencia a Bahia do restante das outras capitais é a atenção que sociedade, artistas e o próprio governo deram para escolas baianas, e estes argumentos já levantamos e apontamos em discussão anterior no Itan Obe, com o artigo de Simone Pondé.
Ao mesmo tempo em que a capoeira ganha espaço nas academias, ela teria de competir também com outras lutas que passariam a ser introduzidas no Brasil, as chamadas artes marciais orientais, que seriam um competidor ferrenho por espaço e adeptos dentro do meio da luta.
A capoeira passa a perder espaço para essas novas artes já na década de 70 e 80, sendo considerada por muitos obsoleta no quesito contundência e eficiência na hora do combate efetivo. O que poderia ratificar esse argumento é o final trágico dos grandes mestres Bimba e Pastinha, que morrem praticamente na miséria e no esquecimento, sendo este um possível indicativo de que a capoeira não andava bem das pernas e seria necessário uma adaptação para que pudesse fazer frente novamente as artes marciais orientais. O karatê, kung fu, judô, Jiu Jitsu, taekendo e o Muay tay, são algumas das artes orientais que passam a fazer frente a nossa luta nacional.
Somente a “substituição” da arte luta nacional pela estrangeira nos levanta questionamentos que vão além do mundo da luta, nos remetendo que essa substituição traz um caráter tanto social quanto cultural e que também validaria essa troca na sociedade brasileira, mas estes questionamentos podem ser discutidos em futuros encontros. Agora nos deteremos na proposta inicial do texto, que é avaliar se a nossa arte luta pode ser considerada uma arte marcial.
Para que o ressurgimento massivo da capoeira tanto nas academias quanto nas ruas aparecesse no final do século XX, os grupos de capoeira precisavam se reinventar para que arte luta nacional permanecesse viva em todo país. Demonstrações de efetividade nos famosos ringues de vale tudo foram uma forma de manter acesa a chama da capoeira nos meados do século XX. Para além dos combates, a capoeira se atualiza e vai se transformando no que hoje podemos chamar de capoeira contemporânea, um cabedal de cultura negra agregador e chamativo com as introduções do maculele, jongo e samba de roda, processos culturais que já faziam parte do contexto negro, mas que agora, unidos com a capoeira, seriam os difusores e propagadores da cultural afro-brasileira não somente no Brasil, mas também no restante do mundo.
O que podemos depreender é que a nossa capoeira no decorrer destes três séculos sofre inúmeras e consideráveis transformações. Ela surge no século XIX com mais força, sendo literalmente um cancro social para ordem vigente, mas também com uma relação bastante complexa e próxima com a política imperial, considerada um processo de resistência não só do escravo, mas também do liberto e dos brancos marginais daquela sociedade.
Entrando no século XX, ela é inicialmente forçada e jogada para o esquecimento nacional, mas que não dura muito tempo graças aos grandes mestres Bimba e Pastinha que lançam a capoeira novamente nas graças da população e tornam o nosso grande esporte em uma prática nacional. No entanto, para nossa tristeza com o passar dos anos a capoeira vai perdendo o interesse dos brasileiros em detrimento destas novas artes marciais orientais. Entretanto a capoeira passa por mais uma transformação já no final do século XX e ressurge novamente como um dos maiores difusores da nossa cultura em todo o mundo.
Estes grandes ciclos que a capoeira passa são de fundamental importância para que possamos entender e disso tirar os argumentos que nos farão crer se a capoeira pode ser considerada uma arte marcial ou não, mas acreditamos que o primordial agora é dizer o que são artes marciais. De onde vieram? Porque surgiram? E como surgiram? Para que só assim possamos extrair algo proveitoso desse conceito e assim taxar ou não a nossa arte luta como uma arte marcial.
Para usar como exemplo da nossa proposição tomaremos o Kung fu como peça comparativa e de análise, até porque o exercício comparativo com todas as artes marciais orientais mais conhecidas levariam páginas e mais páginas de discussão, o que estenderia por demais este artigo, fugindo desta forma do intuito sucinto do Itan òbe. Essa escolha parte de pressupostos históricos que datam esta arte marcial como uma das mais antigas, se não a mais velha arte marcial oriental conhecida.
O Kung fu tem sua origem nos tempos pré-históricos e com o propósito da defesa das tribos na defesa contra animais e tribos rivais, ou seja, ele era aceito por aquela sociedade e usado por ela, por indivíduos compostos por ela, logo de cara percebemos uma vital diferença entre o Kung fu e a capoeira, sua aceitação pelos que a sua volta estavam e o seu propósito final.
Desta luta pré-histórica, o Kung fu só passa a evoluir enquanto luta e como filosofia de vida. Nos damos direito de denominar esta luta como Kung fu para que seja facilitado o entendimento do leitor, mas artigos que versam sobre essa parte da história da arte marcial não a denominavam ainda com esta classificação.
A evolução do Kung fu se dá enquanto arte marcial por volta do século V com a fundação do templo Shao Lin, a partir deste momento as diversas formas e estilos de Kung fu passam a pontilhar em diversas regiões da China com suas características próprias e origens diversas, mas que seguiam o conceito filosófico do Kung fu, que é o trabalho duro e o treinamento constante.
A capoeira, além de não ser aceita pela sociedade, era praticada inicialmente por escravos, que eram os renegados e a parte podre e feia do ambiente citadino. Assim, o agente criador e replicador da arte não era nem considerado um cidadão politicamente ativo daquela sociedade, era meramente uma “coisa”, uma mercadoria com valor e aplicabilidade certa.
O capoeira era um vilão temido que transitava pelas ruas e vielas das grandes cidades brasileiras e que muitas vezes não era incomodado pelo receio de sua reação. Mas era só o capoeira que era preso e açoitado apenas por ser capoeira, fato este que não encontramos, por exemplo, no Kung fu e nem no Muay thai, no karatê ou no taekwondo, por exemplo.
Além da diferença no que se refere à questão social de identificação que as artes marciais orientais tiveram e têm com suas sociedades, a sua aplicabilidade na época foi outra, o seu uso não era apenas para a proteção individual, mas acabou sendo a arma de proteção de seus Estados políticos.
O Kung fu, o karatê, o Muay thai e até mesmo o taekwondo foram usados por seus Estados de uma forma bélica e defensora, caracterizando desta forma a nomenclatura “arte marcial”, ou seja, a arte usada para fins militares, um termo de origem latina que remete ao deus grego Ares, que significa “arte da guerra ensina aos homens”.
Exposto isto, podemos chegar a algumas conclusões no que se refere ao enquadramento da capoeira como uma arte marcial. A capoeira em seu surgimento foi usada na defesa de um grupo ou Estado político? Ela era aceita e usada na defesa daquela sociedade? O seu praticante era membro daquela sociedade e um ativo social e político da mesma? No decorrer de sua história ela é abraçada pela sociedade da qual ela surge e usada militarmente como defesa e esporte?
Estas são apenas algumas questões que podemos levantar e que podemos responder juntos, mas, para nós do Itan Òbe, quando respondidas não serão suficientes para que possamos enquadrar a capoeira como uma “arte marcial brasileira”, acreditamos que a capoeira não precisa ser considerada uma arte marcial para ser reconhecida e respeitada.
A capoeira para nós é mais do que uma arte marcial, também inclui uma filosofia de vida e um condicionamento físico necessário para a prática e desenvolvimento, além da questão do preconceito e da exclusão que esta arte luta possui, a musicalidade e a religiosidade que a capoeira carrega são únicas quando comparamos com as demais artes orientais.
Assim, acreditamos que não seja necessário e muito menos justo com a nossa arte quando a enquadramos somente como uma arte marcial. A capoeira é arte, é luta, é resistência, é filosofia de vida, é religião, e quando falamos em religião nos remetemos ao ritual e à ligação que o praticante tem com seu mestre e seus companheiros, é cultura e é música.
Não precisamos de enquadramentos e classificações para determinar a posição da capoeira no mundo e mais especificamente no Brasil. Precisamos na realidade do reconhecimento que a capoeira realmente merece, a capoeira não precisa ser chamada de arte marcial para ser reconhecida como uma luta efetiva, isso a nossa história já mostra, o quanto ela foi eficaz e perigosa.

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