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NAGOAS E GUAIAMUNS: A DIVISÃO POLÍTICA DA CORTE

Não se pode falar da ação política da capoeira sem antes fazer a principal divisão que se instituiu na capoeira no final do século XIX, que daria margem para os diversos enfrentamentos ocorridos na cidade do Rio de Janeiro. Quando se fala dessa ação política é preciso ter em mente que a ação dos capoeiristas em quase todo o tempo não foi única e constante.

Nesta parte não será feita uma análise mais profunda do que foi a bipolarização do poder político nas ruas dos navalhistas, pois essa análise e contextualização já foi muito bem ilustrada por Carlos Eugenio no seu livro já citado acima, A negregada instituição, onde o autor dedica um capítulo de sua obra para essas duas grandes maltas.

Como já adiantado no item anterior, com o fim da guerra em 1870 a cidade do Rio passa a ser novamente palco da ação dos capoeiristas, só que dessa vez de uma forma mais organizada e não apenas com o intuito de mostrar presença, mas também interferindo no grande sistema político da Corte.

As diversas maltas que pontuavam a cidade no pós-guerra passam a formar dois núcleos grandes e muito distintos, tanto na sua formação quanto na sua ideologia. Eles surgem no Rio, para maior desespero da população que já vivia acuada pela ação das maltas, uma organização ainda maior podendo atuar de uma forma mais incisiva do que aquela que já vinha acontecendo.

Os Nagoas e os Guaiamuns surgem no Rio para mudar a forma de se votar e de se fazer uma eleição. As ações destes navalhistas mudaram de uma vez por todas a manutenção do poder pelas classes dominantes. Liberais e conservadores, em lados opostos estas maltas provocaram uma desordem ainda maior nas ruas da Corte, desordem que, percebe-se nitidamente, era acobertada pelo grupo que dela tirava vantagem.

Os Nagoas, formados por negros africanos e preconceituosos com relação aos crioulos, mestiços e portugueses, sofrem por essa escolha, como já salientado com o fim do tráfico em 1850 e demanda de braços para as fazendas, e fazem com que essa malta vá perdendo sua força nessa relação de poder instaurada nas ruas da cidade.

Os Guaiamuns, pelo contrário, formados pela mestiçagem e pelos imigrantes da cidade do Rio de Janeiro, formam uma malta de grande porte, que era constantemente alimentada por novos braços e pernas que chegavam a todo o momento e eram abraçados pela capoeira, mãe acolhedora dos excluídos e desclassificados da Corte. Os Guaiamuns se aliam ao Partido Conservador e reinam durante muito tempo no cenário eleitoral do Rio de Janeiro.

Talvez essa enorme heterogeneidade tenha sido um dos motivos das diversas rusgas, como diria Carlos Eugênio, envolvendo capoeiristas e abolicionistas nos protestos pela abolição em 1887. A ação dos guaiamuns foi marcada pelo destaque de um dos braços dessa grande malta, a Flor da Gente, nome que recebeu do seu padrinho e maior defensor de suas ações, o deputado Duque-Estrada Teixeira.

A Flora da Minha Gente surge com sua navalha no cenário eleitoral em 1872, dominando as ruas do Rio de janeiro por mais de uma década, tempo de domínio do partido conservador, com as idas e vindas no poder eleitoral da Corte só desaparecendo junto com a repressão aos capoeiristas empregada já no período republicano.

Este completo domínio das ruas pelos capoeiristas pode ser explicado pela liberdade que foi dada aos negros capoeiristas na repressão da Revolta dos Mercenários em 1828, tese defendida por Carlos Eugênio em sua pesquisa. É interessante concordar que a liberdade dada a estes escravos para que se controlasse esta revolta foi de suma importância para o efetivo controle das ruas pelos capoeiristas.Em 1828 a repressão aos capoeiras da Corte era muito intensa e já exibia resultados positivos, mas um fato marcaria e mudaria de uma vez por todas a ação dos capoeiras no Rio de Janeiro. A Revolta dos Mercenários que estoura no Rio de Janeiro em 1828 seria um marco divisor na história da capoeira.

Em junho de 1828 os mercenários estrangeiros (alemães e irlandeses) saem às ruas da Corte, ao que tudo indica reclamando o não pagamento do acordado com o governo pelos seus trabalhos, provocando nas ruas o caos e o medo na população, pois a própria Corte não provinha de efetivo suficiente para combatê-los.

É nesse momento que entra em ação os escravos capoeiras da cidade liberados por seus senhores para que fazerem uso da capoeira na repressão a revolta. O sucesso é quase imediato durando apenas três dias a revolta é abafada graças à ação dos capoeiras, entretanto a alta sociedade carioca pagaria um preço muito alto pela liberdade dada aos capoeiras.

Os capoeiras após o evento se tornam os legítimos donos das ruas do Rio de Janeiro, pode-se até inferir que a Revolta dos Mercenários foi o acontecimento de maior importância para que a capoeira pudesse reinar no Rio de Janeiro por quase todo o século XIX, sendo o gatilho disparador de uma arma que muito seria usada.

A Revolta dos Mercenários foi a faísca para reacender a ação dos capoeiras se tornando o maior problema de segurança pública que já havia ocorrido no Rio de Janeiro até então.

Por mais que pesquisas como a do próprio Carlos Eugênio mostrem que antes desta revolta já existia uma ação considerável dos capoeiristas nas ruas, a autonomia concedida pelos senhores aos seus escravos, em usar de sua luta para reprimir os mercenários, permitiu aos escravos manipular esta mesma arma para que pudessem lutar contra as diversas formas repressão que lhe infligiam.

É possível até inferir que o sucesso da ação dos capoeiristas, tanto na Revolta dos Mercenários quanto na Guerra do Paraguai, conferiu uma maior confiança e autonomia a eles. Mostrou para os escravos e capoeiras da Corte que a capoeira era uma arma de potente calibre que poderia ser usada a todo o momento para usufruir de uma liberdade maior e de um reconhecimento perante a sociedade carioca.

O orgulho e a fama de ser reconhecido como um bom capoeirista já surge neste contexto de repressão e extremamente belicoso do Rio de Janeiro. Peripécias e acrobacias já faziam parte da realidade do capoeirista do Império. Era para muitos a forma mais válida de enfrentamento ao sistema escravocrata, ser notado e muitas vezes admirado pelos seus feitos era em muitos casos mais do que atacar efetivamente um senhor de escravo ou fugir sem destino.

Desta forma é possível inferir novamente que o negro, não importando se africano ou crioulo e também imigrante desclassificado, é a todo custo excluído por esta sociedade estagmentada. No caso específico dos negros nem cidadãos eram considerados. Vê-se não uma rebeldia gratuita e sim uma forma de afirmação de costumes e raízes dentro desta sociedade.

Percebe-se que as ações dos capoeiristas nas ruas do Rio de Janeiro eram para mostrar a sua identidade diante desta sociedade e reafirmar que eles estavam, sim, incluídos e faziam, sim, parte desta sociedade. Eles mostraram de forma bem incisiva e radical, para que todos pudessem ver, por mais que se tentasse apagar o seu registro desta sociedade, intenção largamente empregada pelo governo republicano.

Obs: Este trecho faz parte de uma pesquisa que ainda esta em desenvolvimento.

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A Religiosidade da Capoeira

        A capoeira hoje é mais do que um esporte, uma luta, um folclore ou uma dança. Hoje a capoeira é um comércio, e em se tratando de comércio o produto em questão não deve de maneira alguma ferir determinados aspectos e costumes de nossa sociedade preconceituosa e excludente.

    Não é de hoje que vem surgindo dentro de determinados grupos e em manifestações nas redes sociais, uma grande preocupação em se dissociar a capoeira da religião, e quando nos referimos a religião queremos explicitar as de matriz africana. Em quase todos os eventos de troca de graduação, onde a própria capoeira denomina como batizado, há a enorme preocupação em dissociar aquele evento de algo religioso, com o mesmo discurso sempre: “a capoeira não tem religião, quem tem religião é o capoeirista”.

    Como vemos esse é um discurso além de preconceituoso, carregado de medo e muito medo. Devemos lembrar que no candomblé, alvo dos maiores preconceitos tanto na capoeira, quanto fora dela o termo batizado praticamente não existe, ou seja, foi uma apropriação dos capoeiristas de termos católicos dentro da capoeira.

     Primeiramente devemos destacar de onde parte o processo formativo da capoeira, e não temos dúvida que foi uma criação em terras brasileiras, mas também não temos dúvidas de que foi desenvolvida por africanos, e quando pensamos no cotidiano do africano de um modo geral e como ele toma para si a vivência do seu dia-a-dia; não temos como negar que a religião é para ele ponto central de toda a sua sociedade.

                 “Temos que entender primeiro que para o africano que foi trazido para o Brasil, como para o indígena, mas também para o ‘catolicismo popular’6, os aspectos da vida estão muito mais interligados do que o Europeu (ainda) reconhece.7 Não há uma divisão “secular”: sua religião determina o trabalho que você faz, a comida que você come, e como resolve os problemas físicos”.1

      Nos períodos de grande efervescência da capoeira nas ruas da capital do império, percebemos esta grande a convergência entre os capoeiras e os terreiros religiosos. A proteção mútua era comum e sua relação era de irmandade, os capoeiras adquiriam sua proteção espiritual e em contrapartida protegiam os terreiros de invasões e depredações por parte de quem fosse.

     É desta comunhão que tiramos grandes aspectos que fazem presentes à religiosidade dentro da capoeira. Comecemos pelo principal da capoeira, a roda, o circulo é para o culto africano essencial, é na gira onde os orixás descem a terra e dançam e encantam a qualquer espectador com sua força e imponência. É na roda de capoeira o centro de toda a sua manifestação corporal, demonstração de força, agilidade, e capacidade do capoeira. É dentro da roda onde poucos podem entrar e sair da mesma forma, de pé.

   É ainda no quesito roda que encontramos outra particularidade, sempre durante um jogo algo acontece entre os dois jogadores, cansaço, briga ou até mesmo a troca de apenas um dos integrantes, o mais graduado faz o outro “rodar a roda” e esse giro é sempre no sentido anti-horário. O sentido da gira do candomblé também é no sentido anti-horário, pode ser algo sem muita importância para quem observa de fora, mas é ritual presente e imutável até então dentro da capoeira.

       Outro aspecto que conjumina com a roda é a licença que o capoeirista tem que pedir para entrar, um misto de reverência e obediência. No candomblé para se adentrar a gira todos “batem” cabeça ao atabaque, pedindo licença e ao mesmo tempo reverenciando aquele instrumento que para os praticantes é um Deus. Lembremos que na capoeira o berimbau só aparece no século XX, assim o atabaque foi para os praticantes de capoeira o ponto referencial da roda durante muito tempo.

   Podemos até inferir, e essa questão pede uma pesquisa mais aprofundada, de que o atabaque perde seu destaque no momento onde as perseguições dos costumes afro-brasileiros estavam sendo mais incisivos, capoeira era proibida pelo código penal e os cultos afro-brasileiros eram considerados demoníacos. Este pode ser sim um aspecto que possa ter desencadeado essa troca, mas o que ele representava ainda permaneceu apenas transfigurado na figura do berimbau.

                              “Deste modo, pensamos ser legítimo supor que, em uma época na qual a capoeira precisava se afirmar como manifestação distinta de outras de origem africana com o candomblé, o berimbau foi adotado como um marcador de diferença, reproduzindo-se nele padrões rítmicos antes executados no tambor ou nas palmas. Ou seja, símbolo de uma identidade étnica.” 2

      O berimbau como destaque nos traz outra questão de correlação, a orquestra de berimbaus da capoeira é composta por três berimbaus: o Gunga, o Médio e o Viola. O Gunga é o maior e o principal dentre os três sempre tocado pelo mais velho e mais graduado da roda e os outros dois seguem na mesma lógica.

                          “O berimbau possui várias denominações. Em sua terra natal é conhecido como urucungo, tendo para os negros escravos o poder de comunicação com os espíritos dos mortos e antepassados, além de curar o banzo”.3

    Podemos assim, inferir que para o africano que aqui aportou, e nesse caso variando a sua nação de acordo com seu local de origem, o berimbau, era também como o atabaque um instrumento religioso, que ele enquanto personagem ativo daquela sociedade atribuí àquele instrumento uma qualidade um pouco mais profana, para que desta forma possa estabelecer uma conexão bilateral com a espiritualidade marcante em suas sociedades predecessoras.

   Esta lógica é percebida quando contrapomos a orquestra de berimbaus com trio de atabaques do candomblé. No trio de atabaques temos o rum, rumpi e le. O rum, sendo o maior e com a tonalidade mais grave dos três assim como o gunga na capoeira, é tocado somente pelo ogan alabe da casa, que dentro do preceito é o mais velho e o único hábil para tocá-lo e dar prosseguimento à gira.

    O toque do atabaque na roda de capoeira advém, assim como o samba, o jongo e o maculele, dos toques de candomblé. O ritmo tocado na roda de capoeira é a profanação do toque de ijexa, assim como encontraremos a correlação do toque para oxumare no samba e a semelhança do toque para caboclo com o jongo.

     Será que estes aspectos são apenas coincidências, ou de fato uma coisa realmente está relacionada com a outra? Como dissemos no início a vida social dos africanos que aqui aportaram são em muitos casos traçadas e regidas pela religião, suas manifestações corporais e intelectuais estão fortemente guiadas pela sua doutrina religiosa. Percebemos estes aspectos não somente na capoeira, mas no samba, no jongo, no maculele e no lundu. O africano torna o religioso em profano para que continue a ser religioso.

      Estes são aspectos que como podem ter observado não condizem em nada com o capoeirista, e sim são partes integrantes do ritual que é a capoeira em sua demonstração e aparição no nosso meio social, até agora o que listamos são fatores inerentes ao capoeirista que ele segue e faz sem ao menos saber o porquê e de onde vem aquele preceito.

    Assim podemos concluir que a capoeira tem sim uma religiosidade, hoje ela não é apenas relacionada com as de matriz africana, mas também com o catolicismo e até mesmo com os evangélicos que agora usam das qualidades da capoeira em seu meio social.

     O capoeirista no caso ressalta as qualidades que para ele lhe convém, sendo praticante ou não das religiões que dentro da capoeira estão inseridas, é o capoeirista enquanto pessoa que decide se aqueles gestos são para ele significativos, ou apenas uma repetição do que todos fazem. A religiosidade esta lá e sempre vai estar, basta optar por entender o que faz ou apenas ser um repetidor.

1. SCHOOT,Dolf Van Der. Capoeira e religiosidade. Editora Chiado 2015.pp.10

2. CUNHA, Pedro Figueiredo Alves da. Capoeiras e Valentões: na história de São Paulo (183º-1930). Dissertação de mestrado USP-2011. PP. 26

3. COLUMÁ, Jorge Felipe, CHAVES, Simone Freitas. O sagrado no jogo de capoeira. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v.10, n.1, p. 169-182, mai. 2013.pp 6.

 

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