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 Capoeira no Mundo dos Quadrinhos: Apagão cidade sem lei e luz

Este mês mostraremos o quanto a capoeira está inserida nas mais diversas formas de linguagem. Que a capoeira entre no mundo dos quadrinhos é no mínimo relevante, já que dentro do contexto sociocultural que vivemos, não só em escala nacional, mas global, cada vez menos observamos o interesse das crianças, jovens ou adultos pelo mundo dos quadrinhos. 

É nesse cenário que a capoeira, arte-luta, que até meados do século passado era marginalizada e discriminada, passa a ser personagem principal. Podemos usar estas produções para termos uma ideia de como ela é vista por seus produtores e, de forma indireta, por aquele nicho da nossa sociedade que dá  fôlego para que este tipo de produção continue a existir. 

A capoeira e o seu espectro marginal, belicoso, violento e lúdico são excelentes requisitos para se formar uma bela narrativa de ação e aventura capaz de prender um leitor do início ao fim. A escravidão, a luta pela liberdade e pelo espaço dentro da nossa sociedade são aspectos que fazem da capoeira um grande tema, capaz de se subdividir em múltiplos assuntos capazes de dar roteiros intrigantes e surpreendentes. 

O Itan Òbe iniciará uma mostra de quadrinhos que fazem da capoeira seu mote principal ou que apenas façam uma referência sobre a arte-luta. Para que se iniciem os trabalhos apresentaremos uma das produções mais recentes no mundo dos quadrinhos: “Apagão: cidade sem lei e luz”.

“Apagão: cidade sem lei e luz”, obra de Raphael Fernandes, com a arte de Camaleão, é sem sombra de dúvidas um salto bastante importante na produção e na representação da capoeira em nossa mídia mais comercial. A trama se passa em uma São Paulo caótica e apocalíptica, onde uma falta de luz generalizada desencadeia uma crise social, financeira e civil. Brigas, preconceito e afirmação social são alguns dos temperos que compõem essa HQ. Para os amantes da arte capoeira é um prato cheio.

Aspectos lúdicos da capoeira e de costumes dos integrantes do mundo da capoeiragem estão presentes neste HQ, como o uso de apelidos em vez de nomes pelos integrantes desse grupo durante os diálogos (um detalhe pequeno para quem não vive dentro da capoeira, mas é um grande aspecto para os praticantes, que vão logo de cara se identificar com essa prática). 

Os Macacos Urbanos nos remetem às famosas maltas de capoeira do Rio de Janeiro durante o século XIX, onde a disputa de espaço e a demarcação de território era corriqueira. A diferença que precisamos assinalar a respeito desta HQ é que os Macacos Urbanos disputam território não com uma outra malta de capoeira, mas sim com um grupo neonazista que prega pureza da raça.

O que poderia deixar um pouco a desejar na HQ é a representação da mobilidade dos capoeiras e seus golpes no enfrentamento com seus rivais, mas neste quesito podemos até dar um desconto tendo em vista que a diversidade de golpes que compõem a capoeira e sua execução plástica são em todos os aspectos técnicos difíceis de serem representados em uma página de percepção 2D.

O que torna Apagão ainda mais atrativo é a sua disponibilidade. A HQ está disponível virtualmente na Playstore e pode ser acessado de qualquer celular ou tablet. Cabe agora ao nosso leitor se debruçar sobre esta incrível jornada e se juntar aos Macacos Urbanos na capoeiragem pelas ruas tumultuadas e perigosas da escura São Paulo.

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A Religiosidade da Capoeira

        A capoeira hoje é mais do que um esporte, uma luta, um folclore ou uma dança. Hoje a capoeira é um comércio, e em se tratando de comércio o produto em questão não deve de maneira alguma ferir determinados aspectos e costumes de nossa sociedade preconceituosa e excludente.

    Não é de hoje que vem surgindo dentro de determinados grupos e em manifestações nas redes sociais, uma grande preocupação em se dissociar a capoeira da religião, e quando nos referimos a religião queremos explicitar as de matriz africana. Em quase todos os eventos de troca de graduação, onde a própria capoeira denomina como batizado, há a enorme preocupação em dissociar aquele evento de algo religioso, com o mesmo discurso sempre: “a capoeira não tem religião, quem tem religião é o capoeirista”.

    Como vemos esse é um discurso além de preconceituoso, carregado de medo e muito medo. Devemos lembrar que no candomblé, alvo dos maiores preconceitos tanto na capoeira, quanto fora dela o termo batizado praticamente não existe, ou seja, foi uma apropriação dos capoeiristas de termos católicos dentro da capoeira.

     Primeiramente devemos destacar de onde parte o processo formativo da capoeira, e não temos dúvida que foi uma criação em terras brasileiras, mas também não temos dúvidas de que foi desenvolvida por africanos, e quando pensamos no cotidiano do africano de um modo geral e como ele toma para si a vivência do seu dia-a-dia; não temos como negar que a religião é para ele ponto central de toda a sua sociedade.

                 “Temos que entender primeiro que para o africano que foi trazido para o Brasil, como para o indígena, mas também para o ‘catolicismo popular’6, os aspectos da vida estão muito mais interligados do que o Europeu (ainda) reconhece.7 Não há uma divisão “secular”: sua religião determina o trabalho que você faz, a comida que você come, e como resolve os problemas físicos”.1

      Nos períodos de grande efervescência da capoeira nas ruas da capital do império, percebemos esta grande a convergência entre os capoeiras e os terreiros religiosos. A proteção mútua era comum e sua relação era de irmandade, os capoeiras adquiriam sua proteção espiritual e em contrapartida protegiam os terreiros de invasões e depredações por parte de quem fosse.

     É desta comunhão que tiramos grandes aspectos que fazem presentes à religiosidade dentro da capoeira. Comecemos pelo principal da capoeira, a roda, o circulo é para o culto africano essencial, é na gira onde os orixás descem a terra e dançam e encantam a qualquer espectador com sua força e imponência. É na roda de capoeira o centro de toda a sua manifestação corporal, demonstração de força, agilidade, e capacidade do capoeira. É dentro da roda onde poucos podem entrar e sair da mesma forma, de pé.

   É ainda no quesito roda que encontramos outra particularidade, sempre durante um jogo algo acontece entre os dois jogadores, cansaço, briga ou até mesmo a troca de apenas um dos integrantes, o mais graduado faz o outro “rodar a roda” e esse giro é sempre no sentido anti-horário. O sentido da gira do candomblé também é no sentido anti-horário, pode ser algo sem muita importância para quem observa de fora, mas é ritual presente e imutável até então dentro da capoeira.

       Outro aspecto que conjumina com a roda é a licença que o capoeirista tem que pedir para entrar, um misto de reverência e obediência. No candomblé para se adentrar a gira todos “batem” cabeça ao atabaque, pedindo licença e ao mesmo tempo reverenciando aquele instrumento que para os praticantes é um Deus. Lembremos que na capoeira o berimbau só aparece no século XX, assim o atabaque foi para os praticantes de capoeira o ponto referencial da roda durante muito tempo.

   Podemos até inferir, e essa questão pede uma pesquisa mais aprofundada, de que o atabaque perde seu destaque no momento onde as perseguições dos costumes afro-brasileiros estavam sendo mais incisivos, capoeira era proibida pelo código penal e os cultos afro-brasileiros eram considerados demoníacos. Este pode ser sim um aspecto que possa ter desencadeado essa troca, mas o que ele representava ainda permaneceu apenas transfigurado na figura do berimbau.

                              “Deste modo, pensamos ser legítimo supor que, em uma época na qual a capoeira precisava se afirmar como manifestação distinta de outras de origem africana com o candomblé, o berimbau foi adotado como um marcador de diferença, reproduzindo-se nele padrões rítmicos antes executados no tambor ou nas palmas. Ou seja, símbolo de uma identidade étnica.” 2

      O berimbau como destaque nos traz outra questão de correlação, a orquestra de berimbaus da capoeira é composta por três berimbaus: o Gunga, o Médio e o Viola. O Gunga é o maior e o principal dentre os três sempre tocado pelo mais velho e mais graduado da roda e os outros dois seguem na mesma lógica.

                          “O berimbau possui várias denominações. Em sua terra natal é conhecido como urucungo, tendo para os negros escravos o poder de comunicação com os espíritos dos mortos e antepassados, além de curar o banzo”.3

    Podemos assim, inferir que para o africano que aqui aportou, e nesse caso variando a sua nação de acordo com seu local de origem, o berimbau, era também como o atabaque um instrumento religioso, que ele enquanto personagem ativo daquela sociedade atribuí àquele instrumento uma qualidade um pouco mais profana, para que desta forma possa estabelecer uma conexão bilateral com a espiritualidade marcante em suas sociedades predecessoras.

   Esta lógica é percebida quando contrapomos a orquestra de berimbaus com trio de atabaques do candomblé. No trio de atabaques temos o rum, rumpi e le. O rum, sendo o maior e com a tonalidade mais grave dos três assim como o gunga na capoeira, é tocado somente pelo ogan alabe da casa, que dentro do preceito é o mais velho e o único hábil para tocá-lo e dar prosseguimento à gira.

    O toque do atabaque na roda de capoeira advém, assim como o samba, o jongo e o maculele, dos toques de candomblé. O ritmo tocado na roda de capoeira é a profanação do toque de ijexa, assim como encontraremos a correlação do toque para oxumare no samba e a semelhança do toque para caboclo com o jongo.

     Será que estes aspectos são apenas coincidências, ou de fato uma coisa realmente está relacionada com a outra? Como dissemos no início a vida social dos africanos que aqui aportaram são em muitos casos traçadas e regidas pela religião, suas manifestações corporais e intelectuais estão fortemente guiadas pela sua doutrina religiosa. Percebemos estes aspectos não somente na capoeira, mas no samba, no jongo, no maculele e no lundu. O africano torna o religioso em profano para que continue a ser religioso.

      Estes são aspectos que como podem ter observado não condizem em nada com o capoeirista, e sim são partes integrantes do ritual que é a capoeira em sua demonstração e aparição no nosso meio social, até agora o que listamos são fatores inerentes ao capoeirista que ele segue e faz sem ao menos saber o porquê e de onde vem aquele preceito.

    Assim podemos concluir que a capoeira tem sim uma religiosidade, hoje ela não é apenas relacionada com as de matriz africana, mas também com o catolicismo e até mesmo com os evangélicos que agora usam das qualidades da capoeira em seu meio social.

     O capoeirista no caso ressalta as qualidades que para ele lhe convém, sendo praticante ou não das religiões que dentro da capoeira estão inseridas, é o capoeirista enquanto pessoa que decide se aqueles gestos são para ele significativos, ou apenas uma repetição do que todos fazem. A religiosidade esta lá e sempre vai estar, basta optar por entender o que faz ou apenas ser um repetidor.

1. SCHOOT,Dolf Van Der. Capoeira e religiosidade. Editora Chiado 2015.pp.10

2. CUNHA, Pedro Figueiredo Alves da. Capoeiras e Valentões: na história de São Paulo (183º-1930). Dissertação de mestrado USP-2011. PP. 26

3. COLUMÁ, Jorge Felipe, CHAVES, Simone Freitas. O sagrado no jogo de capoeira. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v.10, n.1, p. 169-182, mai. 2013.pp 6.

 

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