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A Religiosidade da Capoeira

        A capoeira hoje é mais do que um esporte, uma luta, um folclore ou uma dança. Hoje a capoeira é um comércio, e em se tratando de comércio o produto em questão não deve de maneira alguma ferir determinados aspectos e costumes de nossa sociedade preconceituosa e excludente.

    Não é de hoje que vem surgindo dentro de determinados grupos e em manifestações nas redes sociais, uma grande preocupação em se dissociar a capoeira da religião, e quando nos referimos a religião queremos explicitar as de matriz africana. Em quase todos os eventos de troca de graduação, onde a própria capoeira denomina como batizado, há a enorme preocupação em dissociar aquele evento de algo religioso, com o mesmo discurso sempre: “a capoeira não tem religião, quem tem religião é o capoeirista”.

    Como vemos esse é um discurso além de preconceituoso, carregado de medo e muito medo. Devemos lembrar que no candomblé, alvo dos maiores preconceitos tanto na capoeira, quanto fora dela o termo batizado praticamente não existe, ou seja, foi uma apropriação dos capoeiristas de termos católicos dentro da capoeira.

     Primeiramente devemos destacar de onde parte o processo formativo da capoeira, e não temos dúvida que foi uma criação em terras brasileiras, mas também não temos dúvidas de que foi desenvolvida por africanos, e quando pensamos no cotidiano do africano de um modo geral e como ele toma para si a vivência do seu dia-a-dia; não temos como negar que a religião é para ele ponto central de toda a sua sociedade.

                 “Temos que entender primeiro que para o africano que foi trazido para o Brasil, como para o indígena, mas também para o ‘catolicismo popular’6, os aspectos da vida estão muito mais interligados do que o Europeu (ainda) reconhece.7 Não há uma divisão “secular”: sua religião determina o trabalho que você faz, a comida que você come, e como resolve os problemas físicos”.1

      Nos períodos de grande efervescência da capoeira nas ruas da capital do império, percebemos esta grande a convergência entre os capoeiras e os terreiros religiosos. A proteção mútua era comum e sua relação era de irmandade, os capoeiras adquiriam sua proteção espiritual e em contrapartida protegiam os terreiros de invasões e depredações por parte de quem fosse.

     É desta comunhão que tiramos grandes aspectos que fazem presentes à religiosidade dentro da capoeira. Comecemos pelo principal da capoeira, a roda, o circulo é para o culto africano essencial, é na gira onde os orixás descem a terra e dançam e encantam a qualquer espectador com sua força e imponência. É na roda de capoeira o centro de toda a sua manifestação corporal, demonstração de força, agilidade, e capacidade do capoeira. É dentro da roda onde poucos podem entrar e sair da mesma forma, de pé.

   É ainda no quesito roda que encontramos outra particularidade, sempre durante um jogo algo acontece entre os dois jogadores, cansaço, briga ou até mesmo a troca de apenas um dos integrantes, o mais graduado faz o outro “rodar a roda” e esse giro é sempre no sentido anti-horário. O sentido da gira do candomblé também é no sentido anti-horário, pode ser algo sem muita importância para quem observa de fora, mas é ritual presente e imutável até então dentro da capoeira.

       Outro aspecto que conjumina com a roda é a licença que o capoeirista tem que pedir para entrar, um misto de reverência e obediência. No candomblé para se adentrar a gira todos “batem” cabeça ao atabaque, pedindo licença e ao mesmo tempo reverenciando aquele instrumento que para os praticantes é um Deus. Lembremos que na capoeira o berimbau só aparece no século XX, assim o atabaque foi para os praticantes de capoeira o ponto referencial da roda durante muito tempo.

   Podemos até inferir, e essa questão pede uma pesquisa mais aprofundada, de que o atabaque perde seu destaque no momento onde as perseguições dos costumes afro-brasileiros estavam sendo mais incisivos, capoeira era proibida pelo código penal e os cultos afro-brasileiros eram considerados demoníacos. Este pode ser sim um aspecto que possa ter desencadeado essa troca, mas o que ele representava ainda permaneceu apenas transfigurado na figura do berimbau.

                              “Deste modo, pensamos ser legítimo supor que, em uma época na qual a capoeira precisava se afirmar como manifestação distinta de outras de origem africana com o candomblé, o berimbau foi adotado como um marcador de diferença, reproduzindo-se nele padrões rítmicos antes executados no tambor ou nas palmas. Ou seja, símbolo de uma identidade étnica.” 2

      O berimbau como destaque nos traz outra questão de correlação, a orquestra de berimbaus da capoeira é composta por três berimbaus: o Gunga, o Médio e o Viola. O Gunga é o maior e o principal dentre os três sempre tocado pelo mais velho e mais graduado da roda e os outros dois seguem na mesma lógica.

                          “O berimbau possui várias denominações. Em sua terra natal é conhecido como urucungo, tendo para os negros escravos o poder de comunicação com os espíritos dos mortos e antepassados, além de curar o banzo”.3

    Podemos assim, inferir que para o africano que aqui aportou, e nesse caso variando a sua nação de acordo com seu local de origem, o berimbau, era também como o atabaque um instrumento religioso, que ele enquanto personagem ativo daquela sociedade atribuí àquele instrumento uma qualidade um pouco mais profana, para que desta forma possa estabelecer uma conexão bilateral com a espiritualidade marcante em suas sociedades predecessoras.

   Esta lógica é percebida quando contrapomos a orquestra de berimbaus com trio de atabaques do candomblé. No trio de atabaques temos o rum, rumpi e le. O rum, sendo o maior e com a tonalidade mais grave dos três assim como o gunga na capoeira, é tocado somente pelo ogan alabe da casa, que dentro do preceito é o mais velho e o único hábil para tocá-lo e dar prosseguimento à gira.

    O toque do atabaque na roda de capoeira advém, assim como o samba, o jongo e o maculele, dos toques de candomblé. O ritmo tocado na roda de capoeira é a profanação do toque de ijexa, assim como encontraremos a correlação do toque para oxumare no samba e a semelhança do toque para caboclo com o jongo.

     Será que estes aspectos são apenas coincidências, ou de fato uma coisa realmente está relacionada com a outra? Como dissemos no início a vida social dos africanos que aqui aportaram são em muitos casos traçadas e regidas pela religião, suas manifestações corporais e intelectuais estão fortemente guiadas pela sua doutrina religiosa. Percebemos estes aspectos não somente na capoeira, mas no samba, no jongo, no maculele e no lundu. O africano torna o religioso em profano para que continue a ser religioso.

      Estes são aspectos que como podem ter observado não condizem em nada com o capoeirista, e sim são partes integrantes do ritual que é a capoeira em sua demonstração e aparição no nosso meio social, até agora o que listamos são fatores inerentes ao capoeirista que ele segue e faz sem ao menos saber o porquê e de onde vem aquele preceito.

    Assim podemos concluir que a capoeira tem sim uma religiosidade, hoje ela não é apenas relacionada com as de matriz africana, mas também com o catolicismo e até mesmo com os evangélicos que agora usam das qualidades da capoeira em seu meio social.

     O capoeirista no caso ressalta as qualidades que para ele lhe convém, sendo praticante ou não das religiões que dentro da capoeira estão inseridas, é o capoeirista enquanto pessoa que decide se aqueles gestos são para ele significativos, ou apenas uma repetição do que todos fazem. A religiosidade esta lá e sempre vai estar, basta optar por entender o que faz ou apenas ser um repetidor.

1. SCHOOT,Dolf Van Der. Capoeira e religiosidade. Editora Chiado 2015.pp.10

2. CUNHA, Pedro Figueiredo Alves da. Capoeiras e Valentões: na história de São Paulo (183º-1930). Dissertação de mestrado USP-2011. PP. 26

3. COLUMÁ, Jorge Felipe, CHAVES, Simone Freitas. O sagrado no jogo de capoeira. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v.10, n.1, p. 169-182, mai. 2013.pp 6.

 

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Barravento

      Barravento, de 1962 é sem sombra de dúvidas uma aula dos processos culturais afro-brasileiros, o filme transmite todo amálgama que era e é a cultura que herdamos dos escravos que aqui foram forçados a viver. Podemos perceber que a vida deste pequeno vilarejo girava em torno de sua religião, era ela quem comandava o ritmo e as regras de convívio tanto social quanto de trabalho.

     Capoeira, samba de roda, candomblé e puxada de rede em um único lugar, atadas todos pelo mesmo fio tecedor de cultura, a religião. A religião e a musicalidade são elementos chave das sociedades africanas, e esta característica foi transmitida para todos os lugares onde o povo africano pisou na América do Norte, Central e do Sul. Em todos esses lugares encontraremos manifestações de cunho africanas, todas em certa medida musicais e religiosas.

   As igrejas protestantes do EUA carregadas com seus louvores, todos marcados de uma forma extremamente musical e ritmada, a Danmye na ilha da Martinica com características bem próximas da capoeira, um misto de dança e luta e a capoeira no Brasil, que durante muito tempo esteve presente nos terreiros de candomblé, protegida e protegendo, são estes apenas alguns exemplos, com um olhar mais perceptivo entraremos diversas outras manifestações. A dissociação da capoeira com a religião se deu em um tempo muito posterior até mesmo a libertação dos escravos.

     Como percebemos neste filme que data do ano de 1962, a capoeira e o capoeirista estavam sim intrinsecamente ligados ao candomblé, não só pelos laços de amizades entre filhos de santos e as mães de santo, mas estes capoeiras eram sim em muitos casos filhos de santos, ogãns e ativos freqüentadores dos terreiros de candomblé. Essa relação não se deu somente na Bahia, no Rio de Janeiro as relações entre estes dois personagens da sociedade que eram marginalizados muitas vezes se cruzavam e se protegiam diante de uma sociedade preconceituosa marginalizadora.

      Barravento é sem sombra de dúvidas um ótimo programa para discussão em seus grupos de estudos, de capoeira e de amantes da cultura afro-brasileira, dele poderemos extrair os mais diversos assuntos que perfazem o processo tanto cultural quanto preconceituoso que se instalou em nossa sociedade. A religião, a capoeira, o lugar do negro no mundo de trabalho ainda marginal, esses são alguns dos tópicos que podemos ressaltar deste maravilhoso filme. Assim, recomendamos um cine pipoca com Barravento e uma excelente discussão.

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