Filmes e documentários

Tenda dos Milagres

   O que podemos perceber não somente com esse filme, mas com as músicas e outras produções midiáticas no período da ditadura que o Itan Òbe tem publicado,  é  a forte presença da contestação da situação social e racial do país. Foi um período de grande questionamento do que era o Brasil, do que era feito e qual era sua posição no mundo. O que vemos nesse filme é a presença da discussão do que foi uma das maiores falácias teóricas do país, a teoria da democracia racial, a ilusão de uma igualdade social no Brasil ainda mais no período pós-abolição é no mínimo escandalosa.

     O nosso personagem é alvo do claro e mais puro preconceito racial, Pedro Arcanjo teve suas teorias desacreditadas e sua pesquisa desconsiderada não apenas pelo tema abordado, mas também pela origem social do autor. Um afrodesecendente no Brasil nas primeiras décadas do século XX era apena “criança” intelectual perante aos “brancos” de nosso país.

        Outro aspecto que o filme aborda é a enorme perseguição que os terreiros de candomblé sofreram não só na Bahia, mas também em grande parte do país. O enorme desrespeito com as religiões de matriz africana se perpetuam até  os nossos dias, por incrível que possa parecer em pleno século XXI há ainda líderes religiosos que perseguem não só moralmente, mas fisicamente. Em pleno ano de 2015 terreiros de candomblé ainda estão sendo invadidos e seus cultos profanados por pessoas que além de não entenderem o culto, desconhecem o que é liberdade religiosa.

       A grande ideia da democracia racial era o que podemos chamar, de apenas para inglês ver, o que de fato acontecia era a perseguição, o preconceito, o desmerecimento e o descrédito de toda e qualquer manifestação afrodescendente. O brasileiro vivia de aparências e ainda vive, aparentávamos uma igualdade racial e social inexistente e ainda fazemos isso. Acreditar que somos preconceituosos é o primeiro passo para acabar com o preconceito.

        Tenda dos Milagres é mais um cabedal produzido por Jorge Amado da enorme cultura sincrética existente não só na Bahia, mas no Brasil como um todo. O que nos chama a atenção no filme é um pequeno trecho e que poderia até passar despercebida, a citação ao prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos.

        No filme Tadeu que é “apadrinhado” de Pedro Arcanjo e assim como ele, mulato, foi um dos colaboradores da tão famigerada reforma urbanística que excluiu e deportou seus pares da cidade, obrigando os mesmos a constituírem as comunidades marginais, que conhecemos por favelas.  Tenda dos Milagres é para nós que estamos aprendendo sobre a nossa própria história, uma forma fácil e fluida de tentar compreender o que era a nossa sociedade e o que se tornou, devido a este caldo rico e maravilhoso de uma pluralidade cultural, étnica e social.

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Mestre Leopoldina

 leopoldina

      O especial “Mestre Leopoldina”, com toda a irreverência representada pelo próprio mestre, traz à luz uma reflexão a respeito da capoeira praticada por ele. Para quem analisar atentamente o documentário, Leopoldina não levanta em momento algum bandeira de nenhum “estilo” de capoeira: não é regional e muito menos angola.

      Mestre Leopoldina, ao que parece, é herdeiro da capoeira de resistência que tanto atormentou as ruas do Rio de Janeiro em todo o século XIX. Não afirmo que seja a capoeira por ele praticada a capoeira de resistência em si, mas sim o resquício dessa prática, com todas as transformações e interferências que a capoeira sentiu na transição do século XIX para o XX.

     O contato do Mestre Leopoldina com fundamentos da capoeira criada por Bimba ocorreu somente na década de 50 do século XX, através de Artur Emídio. É sinal de que a ideia que se propaga da Bahia como exportadora da capoeira para o resto do Brasil não é uma verdade completa, ela exportou sim uma nova forma de se ensinar a capoeira, afinal Leopoldina já era capoeirista quando entrou em contato com esta nova forma de ensinar e praticar a capoeira.

     O sincretismo da capoeira de Leopoldina é visto quando ele entra em contato com a capoeira de angola no cais do porto no Rio de Janeiro. Leopoldina não assume ser angoleiro ou regional, mas confirma ter aprendido o ritual que existe dentro da capoeira através dos angoleiros do cais.

      Mestre Leopoldina de fato era um “malandro” das ruas do Rio de Janeiro, com suas mulheres, a valentia e a sua capoeira, mas outro aspecto levantando pelo preconceito social em torno dos “malandros” era a sua ligação com a criminalidade e a vadiação. Leopoldina era estivador como muitos dos capoeiras da cidade. O que para muitos era chamado de “vadiação” era por eles praticado em seus horários de folga.

     Deve-se de uma vez por todas desconstruir essa ideia de que o afro-brasileiro e capoeirista na pós-libertação era em sua maioria vadio ou criminoso. Pessoas que vivem e viveram na beira da marginalidade e fazem desta sua vida estão presentes em todos os tons de pele e se expressam através de diversas manifestações culturais diferentes. O estivador, o engraxate, os trabalhadores braçais em geral, não possuem nada de vadios ou criminosos, ainda hoje se percebe o preconceito da cor por mais velado que possa parecer. A sociedade ainda pré-julga pelo tom de pele.

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