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Esporte Sangrento

      Only the Strong é de 1993 e para nós é mais conhecido como “Esporte Sangrento”. O que nos chama a atenção nessa produção não é apenas o fato de ser uma produção estadunindense, mas por ser a capoeira praticamente o ponto central da trama. É através da capoeira que o nosso personagem principal consegue transformar jovens problemáticos em “homens de bem” naquela sociedade.

      O que nos salta aos olhos logo na abertura do filme é a paisagem: o que vemos é uma densa selva, nos remetendo ao caráter selvagem que a capoeira provavelmente tem para os produtores e demais responsáveis pelo filme. Um pouco daquela ideia de que este esporte é brutal por vir de um local onde somente os mais selvagens sobrevivem e vivem.

      Estamos em 1993, mas o nosso personagem, que é um Boina Verde, aprende a capoeira no coração da selva e não em qualquer outra cidade brasileira, que já na época eram polos de difusão da capoeira, como a própria Salvador e o Rio de Janeiro. O que nos incomoda é que o mocinho aprende na selva e o “bandido” na pior favela do Rio de Janeiro. Percebe-se não só preconceitos, mas uma pitada de inferioridade colonizado-colonizador.

      Afinal, o que fazem os Boinas Verdes na selva amazônica? Que intervenção militar é essa que os americanos fazem em território brasileiro? Podemos perceber esse desconforto quando o superior do nosso “herói” chega à aldeia onde acontecia uma roda de capoeira e a festa é interrompida imediatamente. Os olhares são claramente de irritação e desconforto por parte dos moradores.

    O que podemos inferir com esta pequena e introdutória cena é que, além de nos verem como fracos soberanamente, pois precisamos de intervenção militar dos famosos Boinas Verdes, consideram nossa luta brutal e selvagem, ligando a sua prática ao que há de animalesco e tribal no povo brasileiro.

     Queremos salientar que essa não é uma visão extremista e surreal que temos do filme e de sua produção. Devemos lembrar que estávamos já na década de 90 do século XX, assim sendo o mundo já nos conhecia e sabiam muito bem quem éramos e de onde viemos e o que de fato fazíamos.

    Percepções da realidade brasileira e da capoeira como essas foram levantadas nos primeiros 5 minutos de filme, provando a existência marcante do preconceito dos ditos países desenvolvidos com os países ainda em desenvolvimento. Estávamos na época em um processo de construção democrática, pós-ditadura e impeachment do Collor. Estaríamos iniciando naquele ano um novo processo político, que no ano seguinte culminaria com o plano real e o início do nosso desatolamento financeiro e político. Não menos importante: em 1994 iríamos para os EUA e venceríamos o torneio de futebol mais importante do mundo.

    Ideias como essa de subordinação cultural e social jamais devem ser toleradas por nós. Devemos combater firmemente a ideia que de somos somente o paraíso sexual dos gringos e que somos apenas o país do futebol, do samba e da mulata reboladeira. O filme, apesar de ter seu início todo carregado de preconceito, também traz consigo elementos importantes.

      Por mais que seja um divulgador ambulante de preconceitos, não podemos negar que Esporte Sangrento foi, em muita medida, a mola propulsora da divulgação da capoeira no mundo. Não só de crítica negativa é feita esta análise: o filme mostra a face agregadora e sem preconceitos da capoeira, onde todos, de todas as etnias e classes sociais, podem dela usar e nela conviver de forma harmônica.

   Esse conceito agregador e disciplinador da capoeira que aparece no filme usado para recuperar jovens “problemáticos” está em pleno exercício por diversos grupos de capoeira espalhados pelo país, muitas vezes sob a forma de projetos sociais e projetos escolares. Esporte Sangrento seria somente mais um filme clichê de ação estadunidense, onde temos o mocinho, o bandido e a bela donzela, mas, diferentemente de muitos, o filme dá um destaque mais do que especial para a nossa arte-luta.

    Portanto, ressalvadas as questões teóricas, metodológicas e sociais que envolvem a produção do filme, não podemos negar a sua importância no cenário mundial e como colocou a capoeira em um destaque que até então não se conhecia.

      Assim, desfrutemos desta produção, mas com nossos olhos e ouvidos muito atentos ao que é dito e reproduzido e lembremos que a nossa arte-luta evoluiu muito de lá pra cá em todos os aspectos, tanto musical, quanto físico e didático. Então, mentes abertas e sempre críticas.

Bom Filme!

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