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Xana, uma releitura de Madame Satã

      A novela global das nove nos deu mais um exemplo do poder de atuação da capoeira na sociedade. A personagem Xana, que durante muito tempo teve a sua veia belicosa esquecida em grande parte por motivos de audiência, pois para a emissora de televisão passou a ser muito mais rentável uma personagem que tratasse a homossexualidade de uma forma cômica e agradável. O ator veio ganhando destaque no que se refere à forma como ele dá vida a esta personagem, está pública e notória também o aval que os telespectadores deram ao direcionamento social adquirido por Xana no decorrer da novela.

    O distanciamento entre as aparições de “Xana enquanto Madame”, nos mostram que a nossa teoria se comprovou, o redirecionamento da personagem no decorrer da novela foi sim esquematizado devido a audiência e carisma que a personagem ganhou. Publicamos anteriormente no Itan Obé o momento em que a personagem Xana utilizava da capoeira para recuperar o carro de um dos personagens da novela que havia sido espancado.

      Naquele momento a alusão feita a um dos maiores ícones da capoeiragem carioca e que era, assim como a Xana, homossexual assumido foi magnífico, ficamos com a esperança de que aquela brecha seria usada para contar mais sobre a história deste personagem tão marcante da malandragem carioca, o que de fato não ocorreu.

        Entretanto a emissora ou o autor da novela, não utilizaram este ícone da cultura marginal do próprio Rio de Janeiro por motivos que não nos cabe apontar, mas que poderia ser sim uma brecha excelente para tratar não só da capoeira, mas também da ideia machista que a sociedade tem que todo homossexual é indefeso e não sabe brigar. Madame Satã provou que isso não era verdade e a emissora poderia ter utilizado esse gancho para tratar mais da capoeira, da homossexualidade e da história de vida de Madame Satã.

      A segunda aparição da Xana como personificação de “Madame Satã” foi uma releitura de um dos episódios mais clássicos da biografia do nosso malandro. Diferentemente de Madame que mata o seu algoz que o xinga de viado, Xana dá nos seus três agressores uma surra digna de gente grande. A agressão que a novela mostrou por mais irreal que possa parecer para alguns, acontece muito mais do que o normal, a agressão a homossexuais por serem simplesmente homossexuais está mais corriqueira do que poderíamos imaginar. Infelizmente este tipo de agressão não é ficção e muito menos esta fora da nossa realidade.

      Episódios como esse, onde a capoeira é tratada e referenciada por canal de televisão do porte da Rede Globo, é benéfico por mais que a capoeira não seja manipulada da forma como merece e deve ser representada. Podemos até inferir que esse destaque que foi dado pela emissora à capoeira em razão de que nossa manifestação ganhou recentemente reconhecimento pela UNESCO, como patrimônio imaterial da humanidade. A capoeira deve e merece ter este tipo de reconhecimento, mas não devemos fechar os olhos para o anacronismo e deturpações que nossa manifestação sofreu no decorrer dos anos.

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