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Capoeira na Música Popular Brasileira: Iaiá do Cais Dourado

Iaiá do Cais Dourado

       Esta semana o representante da nossa coleção musical, A Capoeira na Música Popular Brasileira, é um ilustre sambista. Martinho da Vila, com Iaiá do Cais Dourado, lançada em 1969, é sem sombra de dúvidas uma obra com enormes requintes sociais. O capoeira de Martinho é até certo ponto de fácil percepção: vemos que se trata de um capoeira trabalhador , muito possivelmente um estivador do próprio cais. Dessa forma ele difere um pouco do imaginário social que se cria em relação à figura do capoeira malandro e vadio.

     O capoeira de Martinho se diverte, mas ele não depende financeiramente de sua amada, como muitos que aparecem nas composições musicais e representações literárias de meados do século XX. Os capoeiras que aparecem, por exemplo, nas obras de Manuel Antônio de Almeida e Aluísio Azevedo, respectivamente “Memórias de um Sargento de Milícias” e “O Cortiço”, são arquétipos desse capoeira que somente pelo fato de ser capoeira era consequentemente malandro, valente e vadio.  

      Encontramos também em algumas músicas, como Olerê Camará, interpretada por Alcione, Berimbau, de Vinicius de Morais e Camará, do Grupo Bom Gosto, o nosso capoeira apaixonado e valente, que abre fogo em disputa pela sua amada ou até pela amada do outro apenas para mostrar o seu poder enquanto brigador e conquistador, quando o que está em jogo é a sua fama e malícia.

     O nosso capoeira vai sofrer de um mal que tem arrebatado muitos de nossos personagens musicais, o seu amor. A “Iaiá” troca o “seu amor ardente por um moço requintado”. O capoeira de Martinho sofre um duplo ataque, tanto afetivo quanto social. A iaiá o troca não por outro capoeira, ou qualquer outro integrante do seu círculo social, o nosso capoeira é trocado por uma pessoa que pode dar tudo o que material ele nunca poderia ter dado a sua amada.

    É por esta razão que o nosso personagem por mais que possa ser valente, se torna impotente e chora. Entretanto, Iaiá não se dá bem com seu novo amor e ‘vaga desesperada pelo mundo’, o que nos deixa um espaço de análise: o que fez Iaiá largar o seu novo amor? Será que ela foi largada pelo moço requintado porque ela obviamente não faz parte do seu círculo social? Será que foi por vergonha, ou ele enjoou de sua nova amada? Ou até mesmo Iaiá pode ter percebido o erro que cometeu ao trocar o amor certo por possível duvidoso?

    Hipotetizações como essas nunca poderão ter um fim em si mesmo, e são um ótimo combustível para alimentar as nossas discussões. Um dos pontos mais interessantes foi a ação do nosso capoeira ao ser procurado por Iaiá: o seu desprezo e preterimento no que consta a sua antiga amada, ainda que sofra com isso. (nos ascende uma luz e tentar entender qual foi o real motivo que levou Iaiá a abandonar o amor ardente).

    Martinho escreve em período em que a situação econômica das classes pobres e marginalizadas era intensamente problemática. Podemos inferir que a troca que Iaiá fez pode ter sido somente pela melhora de condição de vida, pois a vida de quem morava nos morros e favelas era imensamente dolorosa e angustiante. O capoeira podia apenas dar para Iaiá o primordial, não o luxo, por exemplo, de “desfilar em carruagem” que o moço requintado oferecia.

    Não podemos também apedrejar Iaiá e rotulá-la, devemos entender que a vida para pessoas como ela no Brasil naquele período estava bastante difícil e que com toda a certeza é o reflexo do modo como a sociedade enfrentou a questão racial após a abolição, e como foram aceitos ou não os descentes daqueles escravos, e isso nós podemos encontrar em uma discussão anterior feita pelo Itan Òbe sobre o dia 13 de maio.

     Iaiá poderia querer apenas viver melhor, mas infelizmente para ela não sabemos ao certo se foi o seu amor pelo capoeira que a fez voltar ou se não deu certo o amor do moço requintado por ela. A resposta a essas perguntas estão apenas com Martinho e, se ele as têem, coisa que não sabemos ao certo, o mais importante é a reflexão que podemos dela extrair e ver o quanto que de apenas uma letra é possível encontrar história, sociologia e cultura.

    A opção de Iaiá de se abrigar em um braço mais seguro economicamente e de um status social mais elevado e, claro, a posição machista do nosso capoeira de não dar guarida a sua amada por mais que sofresse sem estar com ela são manifestações dessa manifestação entre o objeto artístico e as questões sociológicas.

    A Iaiá do cais dourado, além de clássico da nossa música popular, é, portanto, mais uma fonte rica para alimentar as nossas discussões que envolvam a visão e percepção de mundo, não somente do capoeira e da capoeira, mas de nossa sociedade como um todo. Assim percebemos que muitos dos grandes clássicos que tratam de nossa história, por um viés mais social e político e que podemos depreender através dessa e da canção e da obra com um todo de Martinho, vem de um dos períodos mais turbulentos de nossa história enquanto processo formativo, tanto político quanto cultural. A ditadura e toda a sua repressão na expressão fez com que surgisse uma nova forma de ver, ouvir e dizer quem nós éramos e quem deveríamos ser.

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