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O Preconceito de preconceito

    Neste mês de maio não publicaremos no Itan Obé algo específico sobre a capoeira. Abriremos aqui um espaço para uma carta-protesto ao preconceito. Assunto este que não precisamos dizer, está de todas as formas ligado com a capoeira, alvo de grande preconceito durante todo o século XIX e XX. E quando digo século XX não há de forma alguma exageros, hipérboles nessa sentença.

    O texto que disponibilizaremos, apesar de recheados de metáforas para salvaguardar as identidades dos envolvidos, é a realidade dos fatos acontecidos. Dizer que vivemos num país onde não possui preconceito nem de cor e nem de gênero é viver um conto de fadas do Walt Disney. No Brasil existe na concepção de muitos estudiosos o pior tipo de preconceito, o velado.

   Neste tipo de preconceito não demonstramos o que de fato sentimos, assim não contratamos uma pessoa por ela ser negra ou homossexual, e sim inventamos adjetivos e características que em teoria não serviriam para a empresa. Atravessar a rua à noite quando avistamos um negro vindo em nossa direção com medo de que ele nos assalte, e não fazer isso quando do outro lado nos deparamos com uma pessoa branca, é o mais puro e cruel preconceito.

     Nas piadinhas que contamos aos amigos na roda sobre negros, brancos ou portugueses com o intuito de apenas divertir os amigos existe preconceito. A partir do momento em que descaracterizamos um personagem ativo socialmente e o expomos em público, estamos sendo preconceituosos. Quando “brincamos” que o negro não gosta de trabalhar e prefere sambar, estamos sendo preconceituosos, e, da mesma forma, quando “brincamos” que um branco não sabe sambar, estamos sendo preconceituosos.

     Muitos discordarão, e dirão que uma “piadinha” não faz mal a ninguém, mas fazer esse tipo de “piadinha” ou ação externalizada pelas nossas atitudes é como mantemos vivo esse preconceito, que perdura por muitos anos e que não parece estar próximo do seu fim. Pode ser até para muitos uma visão meio pessimista quando se olha em curto prazo, mas quando analisamos o nosso passado e sentimos e vivenciamos o presente, percebemos que não é tão pessimista assim.

     Fatos como o ressaltado no texto a seguir acontecem diariamente, e isso só quem vivencia pode afirmar com muito mais certeza. O que nos deixa não só mais estarrecidos, mas também de certa forma indignados, é que o ambiente não é mais fator primordial para a consolidação do preconceito. Esperar o preconceito de pessoas ignorantes, não somente no sentido cultural, mas também no social, não seria de forma nenhuma aceitável, mas sim compreensivo devido às circunstâncias sociais a que este agente preconceituoso está inserido.

    A partir do momento em que este agente preconceituoso possui acesso às discussões e debates sobre as questões sociais do país, este tipo de atitude não pode ser forma nenhuma aceitável e compreensível.

Alucinado Som de Turba

Neto Moraes

Não ofereço perigo algum: sou quieta como folha de outono esquecida entre as páginas de um livro, sou definida e clara como o jarro com a bacia de ágata no canto do quarto – se tomada com cuidado, verto água limpa sobre as mãos para que se possa refrescar o rosto, mas, se tocada por dedos bruscos, num segundo me estilhaço em cacos, me esfarelo em poeira dourada

Caio Fernando Abreu

Coisas que eu preciso dizer

Dependendo do lugar que você quer ou ocupa no mundo ou do tipo de zona de conforto que prefere, pode ser que você se pergunte o que esse texto pode ter a ver com sua vida, antes de lê-lo, ou se poderia ser capaz de desencadear alguma coisa em você.

(Isso me coloca na posição de quem só pode torcer para que sua zona de conforto não seja apenas mais um cabresto, a que você dá o nome de sua perspectiva, de sua opinião, de sua formação).

Sim, pode ser que você questione esse texto porque é bem grande a chance de você se considerar uma pessoa legal porque não é e nem nunca foi racista, nem homofóbico, nem machista, nem xenófobo. Você é bacana. Você respeita todo mundo. É bem provável também que, ao dizer que haitianos e brasileiros são seres humanos iguais e que têm os mesmos direitos e que o planeta é um grande e único organismo, você use algum clichê sem graça alguma sobre não gostar de argentinos. Ainda hoje, no começo do meio da manhã, você acessou suas redes sociais e você se sentiu bem por ter curtido mais uma imagem da série “Feliciano não me representa”. Ontem, se não me engano, você compartilhou uma foto do Anderson Silva abraçado a um outro homem com a legenda “Vai mexer com eles?”.

Esse texto sempre terá a ver com a sua vida. Você se vê um herói. Pra mim você não é. Mas “como” (você se pergunta), se você ainda por cima adora samba e acarajé?

Se isso fosse um jogo, eu diria que você tende a ser um homem, pardo ou branco, que tende a ter entre 20 e 30 anos, não sabemos se trabalha com tecnologia ou no administrativo ou no RH de uma empresa qualquer que não dá muito bafafá ou em uma ONG importante na área de Educação. Se você tiver namorada, ela tende a ser branca ou parda. Vemos em nossa bola de cristal que você trabalha com muitos gays, negros, deficientes. Perdão: trabalha num lugar com muitos gays, com muitos negros, com muitos vários. Provavelmente você já saiu pra beber com todos esses seus amigos diferentes. Provavelmente fez questão de mostrar seu novo carro pra eles e o seu medalhão de cinco centímetros de prata ou ouro, eu não tenho certeza do metal, no peito, numa camisa semiabotoada xadrez ou numa Polo amarela e azul.

Você não gostou da descrição.

Mas, diga, é importante pra nossa reflexão: você não gostou do estereótipo ‘tecnologia’ ou do estereótipo ‘branco’? Pois é. Não, não é agressão pela agressão. Você não se vê apenas uma ou outra coisa. Ou melhor: você não quer que eu te veja assim.

Bom, sabe o que acontece, aí teve um dia em que você estava trabalhando. Você quer ser grande, sem pisar em ninguém. Por isso você sua a camisa. Aí você posta uma foto de Ubatuba no seu facebook, depois de engolir meia xícara de café preto e dar duas ou três gargalhadas de algum episódio de Porta dos Fundos que você tá vendo, de novo. Aí passa uma amiga de outro departamento e você pega, vira pro seu amigo e diz assim: “Deve feder, porque é negra. Imagina fazendo sexo? Deve feder pra cacete. Mas…” aí você completa de modo estúpido “entretanto, todavia, no entanto… pelo menos tem um bundão”.

Não gostaria que isso estivesse acontecendo, mas me deu uma vontade de te chamar de Myrian Rios. Difícil não querer chamar você pelo nome. Paz sem voz não é paz, é medo (desculpa por tentar ser irônico também fazendo uma citação chula como as suas). Você faz umas coisas que me dói pra eu ter vontade de explicar: por que você, que é uma mulher de meia idade que de vez em quando frequenta a umbanda, e que quer ser engraçada o tempo todo, faz isso falando coisas curiosas como “Eu gosto tanto de banana que devo ter sido um macaco ou uma neguinha na vida passada”? Mas, claro, sei, não era com essa intenção. Tive uma outra imagem um pouco desagradável de você (desculpe também essa minha exagerada obsessão em querer radiografá-lo, entendê-lo): você é daquelas que, quando tem alguma discordância profissional, chama esse alguém de “[orifício no final do intestino grosso por onde são eliminadas as fezes e gases intestinais dos seres humanos] piscando“, referindo-se a algum aspecto da identidade sexual desse alguém. Que não é você.

Pode ser que você só tenha dito uma vez. Mas você não é o Seu Antonio, do Capão Redondo, que amava tanto, tanto, tanto uma neguinha amiga da filha dele que adorava chamá-la de “uma negrinha de alma branca”. Seu Antonio simplesmente pode nunca ter se questionado sobre por que ele nunca disse preta de alma preta. Seu Antonio talvez sequer soubesse o que era o que estava chamando de ‘alma branca’. Talvez para Seu Antonio o branco da alma branca fosse o mesmo tecido branco que Jesus, Deus e todos os orixás católicos usam. Seu Antonio precisa de um café, um lugar reservado e um papo super franco, aquele papo do tipo “o senhor já parou pra pensar que o lápis cor da pele que a gente usa quando é criança é da cor da sua pele e não da pele dela?”. Você não, Myrian. Acho bom que você prove pra mim que você não é dessas, que você disse uma infelicidade qualquer sem pensar, que não merece a cadeia.

As primeiras coisas que eu gostaria que você considerasse, sozinho

Mesmo diante dessa ficção, pode ser que você não tenha tido vontade de se reconhecer ou pode ser que você ainda não tenha conseguido. Esse texto é sobre nós, você e sobre o Feliciano, e sobre a memorável Luiza Erundina ter pedido para sair da Comissão de Direitos Humanos presidida por ele, porque você, sabe como é, precisa um pouco mais de novos e diferentes dados, citações, estatísticas. Pessoas inteligentes como nós adoram estatísticas, números, contabilidades, citações. Nada difícil, afinal, os estudos sobre preconceito, racismo, homofobia, machismo, xenofobia são tantos e tão coloridos e tão gráficos e tão revoltados que basta atirar uma moeda pro alto e escolher a abordagem.

A Folha de São Paulo fez várias pesquisas sobre racismo. Todo o mundo faz várias pesquisas sobre o racismo. Dos vários números: 88% dos entrevistados afirmou não ter preconceito racial e 91% afirmou que há racismo no Brasil. Quem que tá blefando desse jeito entediante – os números, a Folha, todo o mundo? Por quê, onde, como nasce esse blefe? Como compreender um racismo sem racistas? Que mágica é essa? Provavelmente a mesma mágica que fazem programas do tipo Temos a Tarde Toda Só para Falar Mal da Vida de Pessoas Super Legais que dizem que na verdade nem existe homofobia, que o que existe a maioria das vezes é assalto e que tanto heterossexuais quanto homossexuais morrem na Avenida Paulista. É verdade. Talvez heterossexuais morram na Paulista. Florestan Fernandes disse que aqui no Brasil existe “o preconceito de ter preconceito”. E Paulo Freire gosta muito dessa hipótese.

Muitas gerações seguidas sob opressão naturalmente introjetam a opressão nos oprimidos, isto é, tornam os opressores de invasores a hóspedes indesejados. Um tempo depois eles chegam a desejados hóspedes, quase numa Síndrome de Estocolmo (de um jeito vulgar: a vítima tenta instintivamente se identificar com seu captor ou conquistar a simpatia do sequestrador e cria laços mais complexos com ele, entre eles afinidade e dependência). Freire mais ou menos chamou isso de ‘aderência’ ao opressor – o oprimido não consegue objetivar o opressor porque ele não o vê, o corpo estranho está bem escondidinho dentro dele. Quando é possível a esse sujeito descobrir a existência desse visitante, quando ele consegue passar a descobri-lo fora de si (porque fora de si ele pôde vê-lo), poderá/poderemos começar a pensar em um processo de libertação do hospedeiro. Você fez uma faculdade, viu pelo menos um filme do Godard, fala inglês, já experimentou um narcótico e ainda assim foi premiado com um preconceito. Claro que você responderia para a pesquisa da Folha que você não tem preconceito, mas que ele existe. Mas vamos te provar que, se você não é um herói como achava, você não chega a anti-herói e lhe cabe bem a alcunha de humano e queríamos apenas te dar umas dicas sobre o que não fazer dessa alcunha. Sobre o que fazer, é um problema deliciosamente todo seu.

Tanto a negação de ser vítima de discriminação é frequente quanto a negação de ser preconceituoso. Em pesquisa coordenada por Schwarcz (1996b), 97% dos participantes afirmaram não ter preconceito e 98% dos mesmos entrevistados afirmaram conhecer pessoas preconceituosas. Logo, nem Folha e nem números estavam blefando. A outra questão perguntava o grau de relação entre o entrevistado e a pessoa preconceituosa, os participantes afirmavam: amigos, namorados e parentes próximos. Por outro lado, gays afirmam no mundo inteiro que sofrem com o prenconceito na seguinte ordem de prioridade e excitação dos ataques: primeiro dos pais, depois da comunidade escolar e, em terceiro lugar, de amigos do trabalho. “Todo brasileiro se sente como em uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados” (SCHWARCZ, 1996b, p.155).

Apesar de haver um movimento ideológico/ideologizante nacionalizado que glorifica a mestiçagem, apesar de pagodeiros negros e mestiços vez ou outra se tornarem símbolos sexuais das meninas de todas as cores, a ultrageneralização é uma característica intrínseca às pessoas e tradições: nos apropriamos, ao longo do desenvolvimento de nossa consciência crítica e da nossa consciência de coletividade, de estereótipos e analogias (referentes às crenças, coletivas, e ao repertório pessoal) elaborados há inconcebíveis épocas por incontáveis e inimagináveis sujeitos mais e menos próximos de nós na nossa árvore genealógica. Entender o preconceito como um tipo particular de juízo provisório, o que significa dizer que nem todo juízo é preconceito (SOUZA, 2008), então, é bastante pertinente.

Esses cidadãos são chamados pela literatura científica de usuários de Preconceito Sutil: não têm um discurso claramente e/ou intencionalmente discriminador, mas, quando há uma conjuntura de elementos considerados facilitadores por e para eles, a discriminação se manifesta. Se não podemos dizer com exatidão que são preconceituosos, mas que assumem posições preconceituosas por razões variadas, então podemos também dizer que, por razões e em momentos variados, essas pessoas costumam se apropriar de um discurso antirracista. Isso, por sua vez, implica instantaneamente numa apropriação da norma antirracista de forma apenas superficial e sem significado, de uma reprodução esvaziada de sentido. Sociologicamente, contaminada de sentido.

Para Pérez e Dasi (1996), há uma maioria de pessoas no mundo com sentimentos racistas não conscientes (buscar escritos sobre a consciência ingênua problematizada por Freire). Por outro lado, a televisão aberta depõe a favor como nossa testemunha quase todos os dias: a minoria escancaradamente preconceituosa afirma escandalosamente que representa o pensamento de uma maioria que não teria coragem de se manifestar, não importando nesse momento a origem da falta de coragem: alguns partidos políticos cristãos fazem isso (ontem, na mesma ocasião da saída da Erundina, esses partidos disseram manter Feliciano porque estavam representando a família brasileira), algumas igrejas evangélicas fazem isso e todos os grupos terroristas de filhinhos-de-papai-confessos fazem isso. Se a maioria das pessoas, então, não é nem aberta e talvez nem efetivamente racista ou homofóbica, mas apenas preconceituosa, então quase pode ser chamada de “conformista” ou “confortável” ou “controlada” muitas posturas de muitos, que rápido nos leva à ideia de “omissa” (uma vez que estamos falando de crimes), que fácil leva à ideia de “indiferente”, “egoísta” (quando tentamos explicá-la diante desses crimes) e, logo, tudo isso não está muito distante da palavra “conivência”. A mesma literatura costuma chegar à conclusões bem emancipadoras: para superar o racismo é preciso, “geneticamente”, “despertar o preconceito”.

Para acabar con la actitud racista hace falta antes despertar el prejuicio. Es cuando éste se despierta cuando la persona siente un doble conflicto. Por un lado interior, porque toma conciencia de comportarse de modo distinto a como lo manifestaba. Por otro exterior, porque el contexto social de referencia desaprueba su comportamiento racista. La resolución de este doble conflicto puede provocar un cambio profundo (PÉREZ; DASI, 1996, p.222).

Estamos, portanto, localizando-nos em um movimento global de catálise do preconceito e da catálise imediatamente grudada na anterior de reflexão sobre ele por um movimento recentemente fotografado: a estratégia da sutilização. Hoje inauguramos pelo editorial uma série de 05 papos que enfatizarão, primeiramente, problematizações e desequilíbrios de heranças engessadas, via brainstorming (tempestade cerebral, toró de palpites, chuva de ideias); para, em seguida, tecer relações entre esse bloco de questões e investigação e a pesquisa acadêmica e os movimentos sociais. Preferimos dizer que provavelmente serão textos que envolvem diálogos sobre identidade, para além da obsessão pela ideia de perseguição.

Como agem, como pensam, como significam hoje as pessoas que entram em relações “heterocrômicas” no Brasil? Que pistas podemos seguir para traçar um panorama da influência nas relações heterocrômicas do ranço da colonização? E onde está, por exemplo, o homem negro nas relações contemporâneas envolvendo sexo e afeto, depois de uma abundância de descrições femininas erotizadas e paganizadas? Como Kinsey colaborou para um movimento de epistemologização da configuração bissexual nos seres humanos e uma porrada de coisas sobre outros animais? De que maneira a escala que ele iniciou provou que não existem heterossexuais e nem homossexuais stricto sensu? Como as pesquisas sobre sexualidade humana conduziram os explosivos fenômenos travestis, transex, drags? Laerte, por que ele contribui tanto pras erupções das coisas? Por que você ouviu tanto falar em Gilberto Freyre e como as contribuições de Freyre sobre o miscigenato podem estar nos seus provérbios, frases-feitas, canções? É superioridade o que você sente em relação aos negros ou medo ou suspeita de que a raça subordinada, subordinada implicitamente na sua cabeça, deseje partilhar as prerrogativas de uma raça dominante (dominante explicitamente apenas na sua cabeça)? Por que a sua impressão sobre a sua amiga fez com que você a visse como a uma “metamorfose do escravo”? De que maneira você não sabe que colabora para a perpetuação de um ethos lusitano-colonialesco? Você já leu Caio Fernando Abreu?

Há uma linda e inexplicável cena pra te mostrar hoje e te explicar amanhã. Em 1983, Paulo Freire conversou com o Grupo Banzo na PUC e falou sobre índios: “Um moço brinca sexualmente com outro moço, sem nenhum problema com homossexualismo, desde que sejam cunhados (…) São atos sexuais que (…) extrojetam um certo, vamos dizer, apetite sexual, que não poderia naquele momento… vê bem, tudo isso já é interpretação de branco, porque no fundo tudo é muito simples, no fundo, se você não quiser interpretar coisa nenhuma eu posso simplesmente contar o que ouvi. Dois moços deitados, assim, no meio da gente, 6 horas da noite, maior claridade do mundo, brincando com o órgão genital um do outro, os dois da mesma idade, 25, 23, 21 anos, agradando um o genital do outro, e cochichando coisas e dando gargalhadas maravilhosas. E me disse, na cara de todo mundo, que eu é que tinha vergonha. Você vê como é a questão e a força da cultura, teve um momento em que eu até virei a cara assim, porque eu tinha medo de que, se olhasse, estivesse sendo indiscreto. E não era, eu é que tava fora [uma pessoa pergunta algo e eles insinuam falar de ereção]. Dentro da cultura deles não há constrangimento. Eu achei lindo. Por exemplo, um dos papos nesse momento do agrado, era: ‘ei, quando você me dá sua irmãzinha bacana?’. O outro: ‘não, primeiro você tem que me dar a sua também’. Agora lá vem a interpretação de novo: se excitam, antecipam certas posições amorosas que vão ter depois com a mulher, e isso não afeta nem a masculinidade, nem a virilidade, nem a ética da tribo. (…) Algo que se constata é que nessas culturas é fundamental o consenso: o consenso é exatamente essa aceitação de n coisas que a cultura permite como possível e uma total desconfiança com qualquer coisa que rompa isso e que se introduza. No nosso caso, a complexidade da sociedade chegou a tal ponto que o consenso sumiu. Hoje, inclusive, pra você obter a nível político o consenso, o consenso trabalha contra a democracia. Se ficar o consenso eterno, ele imobiliza, entre nós. Lá não. Eu não caio em nenhuma posição romântica dizendo ‘ah, o ideal era voltar a isso…‘, ‘preservar os índios tal qual…‘, eles devem dar saltos também, só não é possível violentá-los nesses saltos e invadi-los”. Veja o vídeo no repositório digital do CRPF: http://acervo.paulofreire.org/xmlui/handle/7891/1943

Nesse sentido, gostaria um pouco menos de te invadir te induzindo a um salto reflexivo que só pode acontecer nascendo em você por você. Mas a incisividade é porque estou propondo um Círculo de Cultura por escrito com a palavra geradora “Consenso”. Não foi o índio quem expôs ‘vergonhas’, como revelaram as literaturas ibéricas e o que algumas espécimes chamam de ensino fundamental. Se não tivéssemos apelidado de ‘vergonhas’, talvez não precisássemos falar tanto em homens e em mulheres, talvez não precisássemos falar tanto em homens e mulheres brancos e homens e mulheres pretos e, se houvesse sexo fedido, seria por falta de banho.

Melissa Andrade e Neto Moraes

Abril de 2013

BETTO, Frei. Alucinado Som de Tuba. Editora Ática, Coleção Sinal Aberto.

DASI, Francisco; PÉREZ, Juan Antonio. Nuevas Formas de Racismo. In: MORALES, J. Francisco; OLZA, Miguel (orgs). Psicología Social y Trabajo Social. Madrid: McGraw‐Hill, 1996, p. 202‐223.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 218 p., 1970 (23 ed., 1994, 184 p.).

MOREIRA, Maria de Fátima Salum. Preconceito, Sexualidade e Práticas Educativas.

NUNES, S. S. Racismo contra Negros: um estudo sobre o preconceito sutil. Tese apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo para obtenção do título de doutora em Psicologia.

SCHWARCZ, Lilian Moritz. As Teorias Raciais – uma construção histórica de finais do século XIX. O contexto brasileiro. In: SCHWARCZ, Lilian Moritz e QUEIROZ, Renato da Silva (orgs.). Raça e Diversidade. Estação Ciência / EDUSP, 1996b.

SOUZA, Isabela Augusta Andrade. O Preconceito Nosso de Cada Dia: um estudo sobre as práticas discursivas no cotidiano. Tese (Doutorado). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008.

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