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Capoeira e o mundo do trabalho

        Vivian Fonseca traz a luz a um importante assunto que vem permeando o cenário da capoeira durante toda a segunda metade do século XX e início do XXI, a institucionalização do ensino. A institucionalização do ensino acarreta aspectos positivos para o capoeirista com a criação da profissão, com todos os seus direitos, mas também cobra da capoeira uma padronização administrativa, tal qual acontece com outras formas de lutas.

        A obrigatoriedade da filiação dos Mestres e Professores aos órgãos responsáveis, como CREF/CONFEF, bem como de serem esses profissionais formados em Educação Física, deixa de lado todo um amplo debate que envolve a origem da capoeira enquanto processo de resistência negra no Brasil. Ao institucionalizar o ensino da capoeira como uma forma de luta pura e simples, descaracterizamos e esquecemos todo o passado de luta e resistência nas ruas das grandes cidades do Império.

        A autora levanta que, em todo o processo de filiação, o que mais desagrada os Mestres é a obrigatoriedade de ser um profissional da Educação Física. O que é por eles rebatido se refere à inexperiência destes profissionais no mundo da capoeira: não são muitos no país os professores de Educação Física que são, dentro de seus grupos, aptos a dar aula.

     Com esse projeto, Mestres não poderiam mais dar aula, deixando de certa forma o futuro da capoeira nas mãos de pessoas incapacitadas, sem conhecimento filosófico e cultural da capoeira que se dá somente com o longo tempo de treinamento. A capoeira não forma somente o aluno para saber se defender, traz consigo toda uma história de luta que não pode ser de forma alguma esquecida.

     Aceitar esse projeto é castrar o movimento de resistência e de afirmação negra no Brasil. Estaríamos apagando, como fez Ruy Barbosa ao queimar os documentos relativos à escravidão no final do século XIX, da história o que representou a capoeira em todos os séculos XIX e XX. É sumir com a religiosidade, a malícia e a “cor” que a capoeira traz consigo.

       Por mais que tenha sido transformada ao longo do tempo, ao jogarmos a capoeira hoje de certa forma ainda bebemos na fonte dos grandes Mestres, sentimos todo o peso deste processo histórico. Ao caracterizar a capoeira somente como luta, estaríamos desta forma refutando todo este enorme complexo que forma a capoeira.

       Vivian Fonseca expõe brilhantemente os porquês e os poréns desta padronização, em um excelente texto que abre espaço para um grande debate nos grupos de capoeira, do que seria bom ou não para os rumos da capoeira no Brasil, mas a reflexão que podemos tirar deste grande debate é: seria válido reconhecer a capoeira e seus mestres e professores da forma como está querendo ser imposta e assim esquecermos de toda a luta da capoeira para chegar onde chegou?

      Como afirma a autora, mudanças estão sendo feitas em prol dos capoeiristas, mas nada está em definitivo. Devemos abrir os olhos para iniciativas como estas. Tratar a capoeira como simplesmente uma forma de comércio é apagar todo o sofrimento sentido pelos negros, mestiços e marginalizados que fizeram parte deste grande processo.

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