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Mestre Leopoldina

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      O especial “Mestre Leopoldina”, com toda a irreverência representada pelo próprio mestre, traz à luz uma reflexão a respeito da capoeira praticada por ele. Para quem analisar atentamente o documentário, Leopoldina não levanta em momento algum bandeira de nenhum “estilo” de capoeira: não é regional e muito menos angola.

      Mestre Leopoldina, ao que parece, é herdeiro da capoeira de resistência que tanto atormentou as ruas do Rio de Janeiro em todo o século XIX. Não afirmo que seja a capoeira por ele praticada a capoeira de resistência em si, mas sim o resquício dessa prática, com todas as transformações e interferências que a capoeira sentiu na transição do século XIX para o XX.

     O contato do Mestre Leopoldina com fundamentos da capoeira criada por Bimba ocorreu somente na década de 50 do século XX, através de Artur Emídio. É sinal de que a ideia que se propaga da Bahia como exportadora da capoeira para o resto do Brasil não é uma verdade completa, ela exportou sim uma nova forma de se ensinar a capoeira, afinal Leopoldina já era capoeirista quando entrou em contato com esta nova forma de ensinar e praticar a capoeira.

     O sincretismo da capoeira de Leopoldina é visto quando ele entra em contato com a capoeira de angola no cais do porto no Rio de Janeiro. Leopoldina não assume ser angoleiro ou regional, mas confirma ter aprendido o ritual que existe dentro da capoeira através dos angoleiros do cais.

      Mestre Leopoldina de fato era um “malandro” das ruas do Rio de Janeiro, com suas mulheres, a valentia e a sua capoeira, mas outro aspecto levantando pelo preconceito social em torno dos “malandros” era a sua ligação com a criminalidade e a vadiação. Leopoldina era estivador como muitos dos capoeiras da cidade. O que para muitos era chamado de “vadiação” era por eles praticado em seus horários de folga.

     Deve-se de uma vez por todas desconstruir essa ideia de que o afro-brasileiro e capoeirista na pós-libertação era em sua maioria vadio ou criminoso. Pessoas que vivem e viveram na beira da marginalidade e fazem desta sua vida estão presentes em todos os tons de pele e se expressam através de diversas manifestações culturais diferentes. O estivador, o engraxate, os trabalhadores braçais em geral, não possuem nada de vadios ou criminosos, ainda hoje se percebe o preconceito da cor por mais velado que possa parecer. A sociedade ainda pré-julga pelo tom de pele.

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