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Capoeira: O Fio da Navalha

       O forte determinismo com que se fala do surgimento da capoeira, fadada à origem certa nos engenhos e no mato rasteiro, que mais tarde daria o nome àquela luta, abre algumas questões. Por que não possui no documentário, no início, um elencamento de possibilidades para o surgimento da capoeira? Por que é tratado como verdadeiro e real o fato da capoeira nascer nos engenhos e sem possibilidade de mudança para essa concepção?

     O documentário usa uma fórmula já desgastada para falar da capoeira. Parte da pesquisa para elaboração do programa fica de certa forma defasada, quando usa do velho binômio, Bimba versus Pastinha, para falar da capoeira e sua história. O que cada vez mais torna-se sublimado aos olhos da sociedade é que a capoeira é e foi só Bimba ou Pastinha, determinando que este último seja o mantenedor e defensor da capoeira tradicional e verdadeira, e Bimba o químico que mistura a capoeira com outras formas de luta para deixar a capoeira mais combativa e plástica.

   Em momentos bem pontilhados durante o documentário, referindo-se a tópicos bem específicos, o historiador Carlos Eugênio surge para dar mostras de que a capoeira tinha muito mais do que simplesmente pernadas ou ginga. O capoeirista, de um cancro da sociedade e da elite do Império e posteriormente da República, passa a ser usado por essa elite como o próprio historiador diz “(…) os capoeiristas a partir do século XX se tornam ‘leões de chácara’”, seguranças de uma determinada área ou estabelecimento.

    Fato positivo e elucidador durante o programa é quando se mostra a ligação da capoeira com as religiões afro-brasileiras, que agora é muito contestado e descriminado. A capoeira, assim como qualquer outra criação de influência africana em terras brasileiras, está ligada à religiosidade, os negros que aqui aportam têm a religião como pilar da sociedade, sendo assim toda e qualquer produção daquela sociedade, por mais destruída que aqui estivesse, seria mantida e protegida pela fé negra.

     Por fim, o programa abandona a questão da origem da capoeira e de sua ligação com a religião, tratado de forma muito simplória e diminutiva, e se torna quase que uma biografia dos grandes mestres e as dificuldades que tiveram para instaurar a capoeira, por mais transformada que estivesse na sociedade, tanto paulista quanto carioca.  Continuar a ler

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